Sábado, Julho 22, 2006

This is the end, beautiful friends, the end.
Aniversário:

Faz hoje um ano que, ocioso e taciturno, criei este blog para descarregar a bílis.

Sexta-feira, Julho 21, 2006

À espera de Godot.

Perdi a semana passada e mais parte desta semana à espera: não de Godot, mas de ser atendido em repartições públicas. O que, vá lá saber-se porquê, quer dizer quase a mesma coisa. A nossa função pública encena de facto um teatro absurdo: os júris do Nobel nunca visitaram umas finanças nacionais, caso contrário o prémio não seria para Beckett, mas para todos os funcionários públicos portugueses. Enquanto esperava pude observar não só a deficiente organização como o famoso excesso de função pública. E não é um mito: é a cruel verdade.

O Público noticiou o «novo» regime de transferência de funcionários excedentários. Curioso: o «novo» regime não tem nada de novo, é decalcado do modelo da ex-ministra Ferreira Leite, com um nome diferente. E que, pasme-se, agora como em 2002, não resolve nada.

Objectivo adjacente: o governo pretende extinguir centenas de postos e diminuir a despesa pública, sem no entanto perder um único dos seus preciosos funcionários. A pergunta é: como? Ninguém sabe. E a menos que Teixeira dos Santos tenha uma varinha de condão, ou reze muitas vezes ao dia e Deus lhe responda às preces, a vontade do governo não tem viabilidade. Atenção Estocolmo.

Curiosamente o Diário Económico informa que, entre Janeiro e Junho, a função pública aumentou: um aumento líquido de 10.166 funcionários. A quebra da promessa pré-eleitoral de Sócrates é irrelevante: a isso estamos mais que habituados. Mas se já era impossível alimentar um Estado excessivo como o nosso, como sustentar o seu crescimento desmesurado e sem fim à vista?

O excesso de função pública é uma herança salazarista que gostamos de preservar, e ainda reagimos mal a quem nos queira privar da ternura paternalista do Estado. Todos os esforços para diminuir o número de funcionários públicos significaram o exacto oposto: um aumento, normalmente de excedentários, de pesos mortos, de insustentáveis levezas. Sempre que um governo ameaça fazer o óbvio para salvar as nossas finanças, a função pública vem para a rua declarar-se injustiçada. Os portugueses que não são funcionários públicos gostavam de ser: e por isso acham mal que o governo diminua os serviços, os funcionários, a burocracia, a despesa. Os portugueses adoram o modelo salazarista, e não estão dispostos a trocá-lo por nada.

É evidente que um Estado Máximo como o nosso não se sustenta: vai-se sustentando. Às custas (e às costas) da UE. Tenho esperança que, daqui por cinquenta anos (pensamento optimista), o Estado português deixe de ser tratado com benevolência e deixe também de ser benevolente com quem não precisa; que deixe de receber subsídios absurdos e assim deixe de subsidiar absurdamente. As nossas «especificidades» sustentam-nos no quadro europeu. Quando nos deixarem de sustentar, talvez as «especificidades» desapareçam.
Continuing to live - that is, repeat
A habit formed to get necessaries -
Is nearly always losing, or going without.
It varies.

This loss of interest, hair, and enterprise -
Ah, if the game were poker, yes,
You might discard them, draw a full house!
But it's chess.

And once you have walked the length of your mind, what
You command is clear as a lading-list.
Anything else must not, for you, be thought
To exist.

And what's the profit? Only that, in time,
We half-identify the blind impress
All our behavings bear, may trace it home.
But to confess,

On that green evening when our death begins,
Just what it was, is hardly satisfying,
Since it applied only to one man once,
And that one dying.

Philip Larkin. Continuing to live.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

A ler: Suicidas, por Alberto Gonçalves.
Sérgio, o texto aqui estava, repisando os argumentos do costume. Retirei-o por isso: por ser mastigado o suficiente para já não ser pertinente. Além da abominável falta de estilo. A elucidação talvez servisse para clarificar alguma ignorância generalizada. Ou seja: o texto não era, de todo, dirigido a ti. Por fim resta apenas dizer que a minha resposta à questão é a mesma que a tua.
A ler: Quando se trata de Israel, por Francisco José Viegas.

Terça-feira, Julho 18, 2006

Contrastes.

Eu não gosto do José Manuel Fernandes: é um desses burocratazinhos da língua, o que me chateia. Mas dirige um bom jornal: o que talvez me chateie ainda mais. Mas nada disso importa: o que está em causa é a «objectividade» jornalística.

A lenga-lenga é conhecida: há que ser objectivo, há que ser objectivo, há que ser objectivo. Santo Deus, há que ser objectivo. Mas, por favor, expliquem-me (objectivamente) como pode um ser humano com um cérebro (por mais inactivo que seja) ser objectivo?

O Público de ontem (17 de Junho) realça os ataques do Hezbollah. Já não era sem tempo: tendo em conta que os atentados terroristas são uma realidade quotidiana de Israel desde 1948, isto é, desde a formação do Estado Sionista. No entanto, as notícias só surgem quando Israel responde. Caros amigos, esqueçam o Zidane: aqui responder às provocações é salutar.

Mas não é preciso dissertar sobre o óbvio: o que interessa discutir aqui é a parcialidade do jornalismo, que a mim me parece naturalíssima, mas que para o Sérgio é o fim da «decência» e das «qualidades» (palavras usadas pelo Sérgio) da democracia.

Escrevi um texto há tempos em que falava sobre a «teoria da conspiração» no comentário político. Aplica-se. Vejamos: «podemos finalmente dizer que já possuímos as mesmas armas que os fundamentalistas e terroristas há muito manejam (e deixem-me ser catastrófico e exagerado): a manipulação dos factos, a recusa da moderação, um belicismo feroz e agressor contra quem está do outro lado barricada».

Manipulação dos factos? Onde? Diz-me onde que eu vou para a rua manifestar-me (bom, talvez não). Mas é de facto um exagero: o jornalista limita-se a realçar um facto em detrimento de outro, ambos relevantes: tem de ser assim, senão não há espaço. E o espaço em jornal paga-se caro, como se sabe. Mas não oculta nada, nem mente, nem manipula. Que as pessoas só leiam as gordas não é culpa do escriba.

Recusa da moderação? Sérgio, não andas a ler as mesmas notícias que eu: Israel retirou-se unilateralmente da Faixa de Gaza. Os atentados terminaram? Não. Li até uma notícia, há tempos, dizendo que haviam aumentado. Israel reagiu? Não: até agora. Era preferível reagir passivamente, isto é: não reagir? Sabemos os resultados da resistência passiva: Gandhi era um herói? Talvez: se não nos lembrarmos dos massacres que a sua resistência passiva permitiu.

Um belicismo feroz e agressor contra quem está do outro lado da barricada: certo. Quem agrediu primeiro? Mais: quem agrediu sempre, sem regras, sem avisos, sem decência?

O Editorial do José Manuel Fernandes é exagerado. É dado à hipérbole o pobre diabo, nada a fazer. O director do Público tem uma mente tacanha: e eu não gosto de mentes tacanhas, mesmo que defendam o «meu lado». Mas também não é isso que está em causa. O que está em causa, repito, é a «objectividade» do jornalismo. Que foi «violada» no Público de ontem, dando relevância aos ataques Libaneses (o que o Sérgio apelida de «manipulação dos factos»).

Curioso é ver que no Público de hoje as manchetes dão relevância aos ataques israelitas (o que, seguindo a cartilha do caríssimo Sérgio Lavos, deverá querer dizer algo como «anti-semitismo). As manchetes: «Israel deve intensificar ainda mais a guerra nos próximos dias»; «Mais de 40 mortos no Líbano, que "está a recuar 50 anos"»; «Cenas de Guerra em Beirute». Os subtítulos, que no Público de ontem referiam, em contraposição ao título, os ataques de Israel, remetem hoje para a notícia em questão, sem dar contraditório.

Podia puxar a brasa à minha sardinha, já que hoje é o «meu lado» que está a ser «atacado» nas páginas do Público. Podia acusar o jornal de parcialidade, por não mencionar sequer os atentados libaneses. Mas não o vou fazer. Não vejo necessidade: estou habituado à liberdade de imprensa.
Sérgio, eu já te respondo.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

A insustentável leveza.

O tema mais visitado da modernidade é o sexo. Hoje em dia tudo alude abertamente ao sexo, toda a gente fala de sexo, tudo serve para falar de sexo. Passámos da censura (quando era moralmente proibido falar de sexo), para o tabu (quando falar de sexo ainda criava algum embaraço), e do tabu passámos para isto. E o que é isto?

Isto é palermice pegada. Hoje em dia toda a gente está muito interessada em falar de sexo, e o assunto está presente em todo o lado. Não é só a nudez, a sensualidade, ou a pornografia: são as conversas sobre sexo, a funcionalidade, o cumprimento fisiológico, a questão biológica, o orgasmo. Tudo isto se discute, com um grau científico duvidoso, mas com pompa e circunstância. Passámos da era das piadolas de mau gosto ditas na clandestinidade para a era desbocada e ridícula, em que há programas sobre a «especialidade», revistas sobre a «especialidade», congressos, colóquios, mesas redondas: todas elas com as suas mulheres sexualmente emancipadas para quem a promiscuidade é uma libertação e o casamento uma instituição opressiva; ou os homens executivo-desportivos que apreciam muito as relações abertas, a liberdade conjugal, para quem o sentimento de pertença é a encarnação do diabo, e que têm sexo como quem urina.

A liberdade é um conceito político indispensável, mas nas relações humanas é uma parvoíce. Amar alguém é estar preso a alguém, e essa prisão é melhor que a liberdade da promiscuidade. O mesmo se passa com o sexo: é uma ligação além da biologia, mas os pós-modernos estão empenhados em tirar-lhe a componente religiosa e transcendente. Primeiro tiraram-nos o prazer de comer, transformando a refeição numa necessidade unicamente fisiológica, com a palermice das cadeias de comida rápida e o fim do ritual das refeições. Depois foi o tabaco: o modelo da opressão ao fumador, que copiámos dos americanos e que estes copiaram do regime nazi. Só isto dá para ter uma ideia do fascismo das medidas anti-tabagistas, tudo em nome da saúde e da biologia. E é em nome da biologia que nos querem tirar o sexo, o ritual, o símbolo, e tudo o que o envolve, como o amor e o prazer.

É evidente que o sexo não é só amor, nem é necessário ou obrigatório que seja. A questão é que o sexo moderno aponta para o prazer físico, para a satisfação fisiológica, ou algo do género: mas o sexo é muito mais que biologia. Com ou sem amor, o sexo é uma ligação, mas o desligamento entre as pessoas, completamente subscrito pela modernidade em várias vertentes, transforma um ritual natural e transcendente num cumprimento cívico e numa necessidade fisiológica. Passámos da era em que tínhamos filhos para constituir família, para a era em que temos filhos por questões de conveniência fiscal; passámos da era em que o sexo era um ritual, mesmo que fosse de acasalamento, e que por isso mesmo propiciava uma ligação, para a era em que o sexo é mais uma tarefa que temos de cumprir, na nossa jovem e desenfreada perseguição da saúde e do prazer.

E depois há uma coisa que não entendo: falar de sexo, porquê? As coisas boas e interessantes são melhores de fazer do que falar, sem excepção. Ouvir música é muito melhor do que falar de música; ler é muito melhor do que falar de literatura; o sexo é muito melhor de fazer do que de falar. Em contrapartida, as coisas chatas são óptimas para se falar. Futebol, por exemplo: eu não gosto nada de ver futebol e vejo às vezes só para poder discutir lances, tácticas, jogadas, jogadores. Mas é só porque o futebol é chato, e o convívio é agradável. Mas quando a matéria é boa, troco sem pestanejar o convívio pela consumação dessa matéria: literatura, música, cinema. E sexo.

Passámos da era em que o sexo tinha um peso exagerado (de pecado), para a era em que não tem peso nenhum. Uma leveza que, a mim, me parece insustentável.
Portugal, Hoje - O modo de Existir # 11

As pessoas acham que eu não gosto de Portugal. Não há mentira mais infame. Porque eu gosto muito de Portugal. Como qualquer pessoa devia gostar da sua pátria (palavra ainda conotada com o Estado Novo, mas que significa apenas o sítio onde nascemos). Mas porque acham as pessoas que eu não gosto do meu país? Precisamente: porque estou sempre a dizer mal. Mas parece-me claro: só dizemos mal daquilo que nos preocupa. E só nos preocupamos com quem gostamos.

O meu amor por Portugal é, como todo o amor, incondicional. Por mais nefasta que seja a situação do país, eu e todos os portugueses, continuamos a gostar dele. O país pode estar a afundar-se (há oitocentos anos que está, isto é, desde o início) mas nós continuamos a gostar dele. E assim é que é bonito. E é por gostarmos tanto do nosso país que dizemos mal (que eu digo mal), que criticamos com violência (que eu critico com violência), que escarnecemos, que ironizamos, que nos exaltamos. O amor não é, nunca é, pacífico.

Não há forma pior de não se gostar de Portugal como o patriotismo excessivo: achar que os vinhos portugueses são os melhores do mundo, mesmo que nunca tenham sido; compararmo-nos aos gigantes europeus, mesmo que estejamos ao nível civilizacional do Senegal; achar que as nossas calçadas são um património de muito valor, mesmo que permitam um andar deficiente e raramente estejam limpas; vivermos à custa das glórias passadas como os Descobrimentos, mesmo que a nossa balança comercial tenha sido sempre deficitária; acharmos que a poesia portuguesa é a mais rica do mundo, vivendo às custas de Pessoa e Camões (e considerá-los clássicos); fechar os olhos ao presente vergonhoso das contribuições enormes da UE para nos sustentar; desprezarmos os emigrantes como se eles precisassem mais de nós do que nós deles.

Achar que Portugal é o melhor país do mundo é achar que não temos de mexer uma palha para o que quer que seja. Quem não gosta de Portugal acha que os outros países do mundo (mesmo a Inglaterra, ou a Suécia, ou os EUA) nos invejam. Quem não gosta de Portugal acha que os estrangeiros que sempre nos ajudaram ao longo da História apenas querem roubar-nos as riquezas, mesmo que essas riquezas só existam por causa da ajuda externa, ou nem sequer existam. Só uma pessoa que não goste de Portugal pode fingir que está tudo bem, pode fechar os olhos à decadência em que temos vindo a cair (mais ou menos desde que o país existe).

Eu digo mal de Portugal porque há muito mal para dizer. E digo mal porque quero que Portugal resolva os seus problemas, cure os seus vícios, destrua os seus estigmas. Se digo mal é porque quero que Portugal seja um país melhor, porque não somos os melhores, nem sequer somos bons, ou razoáveis. Ou baixamos a média, ou aumentamos a qualidade. O ideal seria baixarmos drasticamente a média (deixarmos de querer copiar a Finlândia, como o nosso primeiro-ministro acha que podemos, e passarmos a querer competir com uma Itália ou com uma Grécia, ou até com um Brasil). Mas não só baixarmos a média, porque nivelar por baixo é problemático: teríamos de aumentar a qualidade. A continuar assim, mesmo competindo entre os piores, vamos ficar em último lugar. Não temos de ser os pobrezinhos do grupo dos ricos, nem temos de ser os ricos do grupo dos pobres: temos de ser, justamente, tão médios quanto os médios, não se admite menos que isso, nem se pode, por enquanto, mais que isso.

Achar que Portugal é um país espectacular só contribui para que ele continue uma choldra.

Domingo, Julho 16, 2006

Tratado de Bolonha:

Eu não me importo de me tornar numa ignorante especializada, desde que o possa fazer em pouco tempo.
And now for something completely different: os factos.

Toda a opinião unânime é idiota. Mas mais que isso: é, sobretudo, perigosa. O perigo está em não haver fundamento no que é unânime. Os factos não são só os factos, e qualquer pessoa com um cérebro próprio saberá que a História é indispensável na compreensão da actualidade. Um facto nunca é um acontecimento isolado: tem causas e consequências, antecedentes e subsequentes.

As opiniões unânimes são um modo cobarde de tomar posição: sem reflexão e sem estudo, sem comprometimento, sem verdadeira opinião. Quem aceita todas as opiniões veiculadas por uma retórica poderosa não tem, afinal, opinião nenhuma. Nem merece. Quem não questiona o que lhe é ensinado nem sequer é digno do ensinamento.

Mais: a unanimidade, em democracia, é a prova de que há algo de errado. Quando um governo ou um presidente é eleito por maioria absoluta é porque a democracia está em perigo. Se um sistema aberto a todas as posições se afunila numa única opinião ou num único modo de pensamento, a democracia está limitada: ou seja, ameaçada.

O perigo da unanimidade é o perigo do preconceito: que é um conceito sem fundamento. Os preconceitos unânimes, digamos assim, foram veículos de grandes massacres. O Nazismo será talvez o caso mais mediático. Hitler era um magnífico orador: serviu-se da democracia para acabar com ela. A massiva votação que obteve é demonstrativa do perigo das unanimidades. O resto, como se diz, é História.

Isso leva-me onde eu queria chegar: Israel.

O preconceito contra Israel não é só um, são dois: o anti-americanismo e o anti-semitismo. Antigos, antigos. Curioso que tenham sido estas as raízes do Nazismo. Curioso que se mostrem hoje tão vivas como antigamente. Curioso. O tempo dirá se, ao invés de curioso, o facto não será afinal perigoso.

O argumento contra Israel é sempre o mesmo: os palestinianos estão a defender a sua terra. Meus amigos, que terra? Elucidemos: há três mil anos que existem judeus na região da Palestina. Mas não é preciso ir tão longe, não é preciso alegar a quantidade de vezes que o povo foi expulso da região ao longo dos séculos. Basta ficarmo-nos pelo Século XX, em plena Segunda Guerra Mundial: Hitler exterminava quantos queria no seu quintal e nos quintais em volta; Estaline idem. Houve quem escapasse, quem se exilasse, quem fugisse: para os EUA. E para a Palestina.

Na verdade, até à criação do Estado de Israel em 1948 as populações muçulmanas e judaicas viveram em paz. Na verdade, o Estado da Palestina só foi proclamado em 1988, numa retaliação infantil e rancorosa à formação do Estado Sionista (previsto desde o Século XIX). Na verdade, se não se reconhece povo israelita muito menos se poderá reconhecer povo palestiniano. Na verdade, Israel é atacada desde que o Estado foi criado. Na verdade, Israel é uma democracia liberal e os países muçulmanos em volta são regimes autocráticos, subdesenvolvidos, opressivos, que violam os direitos humanos. Na verdade, os muçulmanos não são capazes de reconhecer um Estado judeu porque são incapazes de aceitar a diferença. Na verdade, não há qualquer argumento que defenda a causa palestiniana. Apenas equívocos, bílis anti-americana, anti-semitismo vintage, idiotices várias.

O momento presente é especialmente dado a equívocos motivadores das tais idiotices: Israel ataca fortemente o Líbano para a libertação dos soldados israelitas raptados. Todos se horrorizam com a violência israelita: ninguém, mais uma vez, está interessado nas causas. Quando, há uns meses, Israel se retirou pacificamente da Faixa de Gaza, os ataques terroristas não cessaram, a barbárie continuou, perdurou a luta pela libertação: mesmo que a libertação estivesse já assegurada.

O Estado de Israel não se podia mostrar fraco neste momento. Não se pode ser tolerante com a barbárie muçulmana, não se pode resistir passivamente a quem nos ataca sem cessar, não se pode apenas defender. Uma Israel que não respondesse à violência constante do Islão, era uma Israel humilhada, fraca, vulnerável. Uma Israel que continuasse impávida e serena perante os barbarismos muçulmanos era uma Israel que, a médio prazo, seria esmagada pelo totalitarismo radical.

Como tantas vezes vimos na História: democracias tolerantes destruídas pela intolerância totalitária.
A ler: Porque sim, por Pedro Lomba.

Sábado, Julho 15, 2006

Contraditório:

Ao contrário do Eduardo eu acho que o sistema de pensões é uma questão importante. Principalmente se pensarmos no nosso sistema de Segurança Social falido, tão inseguro que é como se não existisse. E acho também importante o facto do PS apoiar o modelo do PSD: não é todos os dias que um Partido Socialista se assume liberal.
Ainda sobre Zidane:

Se o jogo tivesse ocorrido no Século XVIII, Zidane responderia com um corajoso convite: uma hora e um lugar. Um duelo de cavalheiros, não um desentendimento de bárbaros. Evidentemente que no Século XVIII não havia futebol: outra época, outro mundo, outros homens. Outros homens, mais civilizados.
Diário, 13 de Julho, 2006:

Depois de um dia perdido entre as finanças e uma empresa com escritório obscuro numa cave de ambiente kafkiano; depois de migrações pendulares de longos quilómetros que não nos guiavam a lado nenhum; depois de um calor insuportável, tropical, terceiro mundista, calor tipicamente subdesenvolvido; depois do suor a teimar em esgueirar-se pelos poros dilatados, cheguei a casa, livrei-me das roupas que me oprimiam, e lancei-me na bem-aventurança libertária do banho, afastando assim hipóteses olfactivas de ser confundido com um ambientalista.

Jantei precocemente: era preciso encontrar uma amiga às oito, para o teatro às nove e meia. Assim fiz, assim foi. Que íamos ver? Ionesco. A peça? Rhinocéros. Conheci Ionesco pela obra que toda a gente conhece: A Cantora Careca. Depois lá me fiz ao resto da obra: sobretudo peças, mas também um romance que não consegui ler. Se Ionesco é tradicionalmente esquizofrénico quando escreve, o romance cujo nome não me recordo por mais voltas que dê à cabeça, exacerba ao nível da imaginação esse recurso estilístico. A paranóia é constante, e o romance é completamente misleading (não consigo encontrar palavra em português que sirva tão bem os propósitos que quero). Às tantas páginas, estava perdido. Desisti. Mas as peças, ah as peças, as peças são de génio.

Ionesco dizia que o teatro tinha regras simples, e que nada do que fazia ia contra essas regras: não lhe interessava revolucionar, porque ignorar a História, e criar de novo, como se não houvesse um passado, é fácil. Subverter, dentro de limites, criar algo novo em moldes antigos, isso sim, é complicado.

A maioria das pessoas considera Ionesco um parente pobre de Beckett: não eu. Encontro, evidentemente, um paralelo: o absurdo. Mas depois disto, o parentesco parece-me tão absurdo como o estilo dos dois escritores. O sítio onde nascem, e o sítio para onde emigram, são demonstrativos de como os dois autores, abordando os temas com o mesmo instrumento, seguem caminhos essencialmente distintos: um nasceu na Irlanda e emigrou para Paris, outro nasceu na Roménia e emigrou para Londres. A mim parece-me clara a importância destes dados biográficos: porque ao contrário dos puristas eu acredito que, não só a biografia é paralela à obra, como a vontade é mais importante que o talento. Mas divago.

Qual o melhor, entre os dois? É irrelevante, mas o mundo está cheio de opiniões simplistas e redutoras: na generalidade aponta-se para Beckett, mas acredito que não passará de mais uma injustiça do meio literário. Beckett, como se diz, estava condenado ao sucesso; Ionesco talvez estivesse condenado ao anonimato.

Facto curioso: a única peça encenada que vi de Ionesco foi precisamente A Cantora Careca, e, facto embaraçoso, eu entrei: como actor. Coisas da escola, não vale a pena esmiuçar. Estava portanto muito ansioso para ver o absurdo de Ionesco em acção: as palavras formando homens, os homens formando personagens, as personagens formando, a cada fala, o absurdo da nossa condição.

Não há uma forma bonita de o dizer: os bilhetes estavam esgotados. Ficámos uns minutos à porta do D. Maria II, em estado de choque, a tentar compreender o sucedido: um país com nove milhões (estatística generosa) de analfabetos esgota uma peça de Ionesco à quinta-feira? Não fazia o menor sentido. Era, ironicamente, absurdo.

Entregues a nós mesmos, com o ânimo perdido, vagueámos mais uma hora ou duas pela Baixa da cidade. No final, o único teatro absurdo que vimos foi as nossas tristes figuras reflectidas nos vidros das lojas: como personagens de Ionesco.

Sexta-feira, Julho 14, 2006

Lado nenhum.

As coisas já não são o que eram. Melhor: as coisas já não são o que são. Nunca foram? Talvez.

A divisão entre direita e esquerda ainda é legítima? Concedo que sim. É importante? Pouco. A diferença entre as ideologias é significativa, mas o problema prende-se com a prática. As discussões ideológicas, além de enfadonhas, não servem de grande coisa. A prática, porém, merece ser discutida. Mais: é urgente discuti-la.

Creio ter sido Vasco Pulido Valente a dizer que nunca um verdadeiro liberal chegara ao poder: chegaram, mas uma vez eleitos, o liberalismo desaparecia magicamente. Mas não é só com o liberalismo. Eis os exemplos:

Hitler. Considerado de extrema-direita pela maioria, o governo de Hitler tinha, afinal, uma estrutura socialista: Estado ultra-centralizado, relativismo vintage, colectivismo em ponto de ebulição. Aliás, por alguma razão o seu partido se intitulava «Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães». E, como notou Klemperer, Hitler foi a prática rigorosa das ideias de Rousseau, que foi o ponto de partida para todos os socialismos.

Margareth Tatcher chegou ao poder defendendo o Estado Mínimo e um liberalismo extremo para salvar a economia. Facto: aumentou os gastos com o Estado Previdência. Onde está o liberalismo? Para onde foi o Estado Mínimo? Mas há mais: Tatcher era uma conservadora da velha guarda. Pelo menos, assim parecia. Ou pelo menos até contrariar todo o pensamento político conservador, desde Burke até Oakeshott, com a célebre idiotice: «there's no such thing as society».

Bush, considerado de direita por uma minoria, e de extrema-direita pela maioria, uma vez no poder acena de longe ao liberalismo: aumenta, e muito, as despesas públicas (chamaram-lhe socialista); invade o Iraque em cruzada de universalismo moral estilo revolução francesa (chamaram-lhe Trotsky).

Chegados ao nosso pequeno país encontramos as tendências do mundo civilizado: Sócrates, do Partido Socialista, faz uma política liberal que deixa a direita portuguesa entregue ao ócio e os puristas do seu Partido à deriva.

Confusos? Não é preciso tanto.

A semana passada Pacheco Pereira escrevia isto no Público: «Mais do que liberalismo pela cartilha doutrinária eu quero políticas liberais, vontade liberal, gosto irredutível por todas as liberdades». A teoria não vale nada sem aplicação prática, e acho que sabemos isso mais ou menos desde nos ensinam a ler e a escrever. Por isso tanto me faz de que «lado» vêm as soluções, desde que venham.

O problema é que eu não as vejo em lado nenhum.

Quinta-feira, Julho 13, 2006

A ler: A sauna democrática, por Pedro Mexia.
Avisos.

A literatura pós-holocausto obcecou-se pelo totalitarismo. Hitler já brincava no seu playground anti-semita há uns anos; Estaline há mais anos ainda. Poucos denunciaram: ninguém ouviu.

Tanto Hitler como Estaline foram aplaudidos pelas elites: Sartre e Éluard eram publicamente estalinistas; Heidegger aderiu ao nazismo com naturalidade e convicção. O namoro entre artistas e ditaduras perdura até hoje: é tão preocupante como irrelevante. E é, em parte, indesculpável.

Há uma razão para os intelectuais se perderem de amores pelos vários totalitarismos: o sonho ideológico de segurança e perfeição seduz os artistas, presos num mundo dominado pelo caos do acaso, pelo absurdo, pelo sentido trágico. A atracção inevitável pela promissora ideologia, bem como pelo messias que a encarna, acontece. Os resultados são os que se sabem. E os reconhecimentos do fracasso ideológico, de parte a parte, foram tardios.

O mundo só acordou de facto para a realidade com o Holocausto, mas por esta altura o totalitarismo tomava conta da Europa inteira (ou quase) e estava irremediavelmente enraizado. Os intelectuais, perante a evidência, dissertaram sobre o óbvio: com ou sem talento, com ou sem génio, com ou sem pertinência. Não importa: a constatação foi tardia. Por altura do Holocausto já o corpo de Kafka estava em avançada fase de decomposição, morto há mais de quinze anos. O aviso de Kafka estava, porém, mais do que vivo. Kafka previu o totalitarismo e as suas estruturas opressoras. Mas Kafka não previu apenas as estruturas: previu as razões. Kafka fartou-se de avisar o mundo para a barbárie latente, para a pureza ideológica como motor de violência, para o sonho igualitário como razão para a opressão. Ninguém o ouviu. Os profetas são sempre atacados ou ignorados; geralmente, incompreendidos. E mártires. Kafka não podia ser excepção. O declínio começou em 1917: do mundo e de Kafka. Coincidência? Não me parece.

Existe alguma lição a tirar da História? A minha mente conservadora diz que sim. Mais: afirma efusiva e freneticamente que sim. O que estamos a viver agora é só uma revisitação da História. O presente é um remake do passado: a tecnologia melhora, os mecanismos alteram-se, os métodos, as justificações e os objectivos imediatos são diferentes, mas a história é, essencialmente, a mesma.

A constatação será sempre tardia: só quando o óbvio for ululante (como diria Nelson Rodrigues). Vai sempre ser tarde demais. Já é tarde demais.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

Superioridade.

Não é de hoje. O espartilho do «politicamente correcto» sempre foi irritante e totalitário. Mas ultimamente tem sido pior. Somos governados por ele. Antes «o politicamente correcto» era ser oposição, era estar contra o governo. Hoje, a oposição tem dificuldades: os nossos governos não arriscam, não têm coragem para tomar uma posição forte em relação a nada e são os primeiros a promover o «politicamente correcto». Sempre que arriscam uma medida arrojada, o povo manifesta-se, sai à rua, grita, e o governo, com medo de perder simpatizantes (ou simplesmente com medo), volta atrás na decisão. Mas se o «politicamente correcto» toma conta da nossa vida pública, é só porque Portugal tem a mania de exacerbar ao nível da imaginação as tendências europeias vigentes.

O «politicamente correcto» serve, essencialmente, para não dizer. Uma opinião politicamente correcta não exprime opinião nenhuma, apenas esconde a opinião (implícita) verdadeira. É uma cobardia intelectual. Não nos permite dizer as verdades se forem cruéis, e propõe-nos, em substituição, a mentirinha piedosa, a demagogia simpática, a diplomacia forçada. O «politicamente correcto» não admite a superioridade de uns sobre os outros, não reconhece melhores modelos e piores modelos, não distingue ideias imbecis de ideias boas. Aliás, o «politicamente correcto» tenta vender a noção de que nada é melhor ou pior que o seu equivalente, apenas diferente: é a típica parvoíce politicamente correcta, a ilusão destruidora da homogeneidade, e uma mentira capaz de muitos estragos.

Hoje em dia é-nos proibido reconhecer a superioridade da civilização ocidental sobre a civilização muçulmana. Proibido, isto é: mal visto. E como todos queremos ser bem vistos, ninguém assume o óbvio. É impossível dizer isto publicamente sem que nos caiam uns quantos chatos puristas e defensores do multiculturalismo em cima. Amigos: nada contra o multiculturalismo, mas a superioridade ocidental é um facto incontornável. O nível de liberdade (social, económica e política) nos países ocidentais é incalculavelmente maior que a dos países muçulmanos. Democracia não existe: eleições livres são oásis naqueles desertos, mas normalmente não passam de miragens. E sempre que vai às urnas o povo elege radicais armados dispostos a fomentar mais guerra, a promover atentados terroristas e, claro, mártires. No Irão, Ahmadinejad diz que o holocausto nunca aconteceu, quer riscar Israel do mapa e reclama para si armamento nuclear. Na Palestina o Hamas, grupo radical armado, venceu as eleições com maioria absoluta e ameaça também riscar Israel do mapa. Aliás, riscar Israel do mapa e promover ataques suicidas parecem ser as duas bandeiras políticas do Islão moderno (?).

O desenvolvimento económico é nenhum, já que o petróleo (recurso que poderia dar às populações muçulmanas independência económica) está nas mãos dos ditadores e dos seus clãs, que não permitem uma economia saudável nem desenvolvida, que não investem em refinarias petrolíferas e indústrias relacionadas, pois só lhes interessa vender o suficiente para se conservarem bilionários (e para matar de fome as populações).

E das liberdades individuais é melhor nem falar: só a opressão da mulher no Islão dava um texto.

Dizer que as sociedades muçulmanas e as sociedades ocidentais são igualmente bem sucedidas, e que só existem diferentes caminhos a desaguar num mesmo fim, é não só uma afirmação perigosa, como imbecil. Achar que um ocidental médio tem a mesma liberdade política, independência económica e estabilidade social que um muçulmano médio é ser um idiota chapado. Ou um cego. Até porque, que se saiba, não existe cidadão muçulmano médio: o fosso entre os bilionários e os miseráveis é gigante, e os que estão no meio são, evidentemente, engolidos por esse fosso. Essa é, aliás, uma das características das sociedades desenvolvidas: a classe média. Sim, a classe média é cinzenta, é uniformizada, é chatinha. Mas não há outra prova de sucesso do modelo ocidental como esta: uma classe gigantesca, onde todos têm, com as devidas diferenças, oportunidades e liberdades razoáveis e, em parte, extensas.

Mas a exposição destas evidências é mal vista. Talvez, diria eu com boa vontade, pelo óbvio que constitui. Mas não é por isso: é porque andamos todos obcecados pela igualdade, mesmo sabendo que nunca existiu, nem vai existir, e que as diferenças são, precisamente, fontes de riqueza e originárias de desenvolvimento. O que é curioso nisto tudo é que o «politicamente correcto» só existe porque somos livres de dizer o que nos apetece. Em nenhuma ditadura existem opiniões politicamente correctas, porque o «politicamente correcto» é uma sugestão de moderação simpática (normalmente burra), e numa ditadura todas as opiniões contrárias à «indiscutivelmente correcta» são banidas: a censura, o controlo da imprensa, as prisões, as execuções, etc. E é curioso ver que a liberdade de expressão que conquistámos se condena a si mesma, com a mania das opiniões sorridentes e simplistas sobre assuntos sérios e complexos. A obsessão moderna da imposição do nosso modelo é a principal negação da nossa superioridade, porque se os povos muçulmanos estivessem preparados para a democracia e para uma economia liberal teriam eles mesmos chegado lá, tratado da laicização do Estado e eram agora potências económicas.

Enquanto não assumirmos a evidente superioridade do Ocidente, vamos continuar a invadir países muçulmanos, a estabelecer democracias à força, a enraivecer as populações que, uma vez com poder de voto, escolhem radicais para os governar. Radicais decididos não só a escravizar o seu povo, como prontos para destruir o Ocidente. Por isso, a única atitude inteligente é esperar: esperar que a globalização faça o seu trabalho, esperar que as populações muçulmanas se desprendam elas mesmas dos totalitarismos em que vivem, esperar que percebam que o modelo ocidental é mais justo, mais livre, mais humano. Esperar, apenas esperar. Porque a conversão forçada do Islão à causa ocidental está a levar à conversão massiva do Ocidente à causa islâmica.

Terça-feira, Julho 11, 2006

Diário, 10 de Julho, 2006:

A minha primeira entrevista de trabalho. Aos dezassete anos entrego-me pela primeira vez à nobre actividade, à maturidade social do trabalho, à árdua escravidão sob o jugo da entidade patronal. É coisa pouca, trabalhinho de fim-de-semana, mas é uma conquista. Não é difícil. Também não é bem pago: nunca fiz nada da vida. Mas estou confiante. E se quero aumentar o nível de vida, se quero alargar o rendimento mensal além da mesada, tenho de fazer por isso: ter pais ricos era uma hipótese, mas essa está, por enquanto, fora de questão. Pelo que sexta-feira começa a actividade escrava.

Não estava nervoso. Acho que na verdade só nos enervamos com o que esperamos minimamente, ou quando sabemos o que esperar. A verdade é que eu não sabia: que raio acontece numa entrevista de trabalho? Fui imaginando pelo caminho: mandam-me despir, auscultam-me, põem-me um pau na boca e obrigam-me a dizer «AH»; pedem-me para aguardar num gabinete durante três horas, enquanto uma câmara no canto da sala vai gravando as minhas reacções ao longo dessas três horas de espera aborrecida; uma secretária libidinosa abre uma garrafa de champanhe (champanhe, não espumante) e iniciamos ali uma bonita e glamorosa festa a dois; entregam-me um questionário com trezentas páginas, entre as quais cinquenta só sobre hábitos higiénicos e/ou sexuais; mandam-me fazer análises ao sangue, testes psicológicos e físicos, e, por fim, enviam uma striper para me fazer uma lap dance, só para verificar se eu sou capaz de manter as minhas mãos longe dela. Fantasias, fantasias.

Não sei se repararam mas usei muitas vezes o ideário sexual. Não foi propositado, mas surgiu. E tem uma certa lógica: o sexo é desconfortável. O sexo deixa-me uma pilha de nervos. A respiração entrecorta-se, e só volta ao normal quando termina a festa. E, não sejamos demagogos, eu estava nervoso.

Dei facilmente com o sítio. À chegada senti uma súbita vontade de voltar para trás, dizer adeus à ideia estouvada de me empregar, mesmo que o emprego seja apenas por um, ou dois, ou três fins-de-semana. Durante uns minutos disse murmurando, ainda à porta, que «isto do trabalho» não era para mim. Ainda repeti a lenga-lenga umas quantas vezes. Depois lá entrei. Sorri à recepcionista que folheava uma revista cor-de-rosa e perguntei educadamente pelo nome de quem me esperava. A recepcionista fungou e não falou: antes apontou a sala onde, ao que parecia, eu me devia dirigir. Tudo isto sem tirar os olhos da revista. Segui o conselho gestual da recepcionista, e, uma vez numa sala cheia de empregados de escritório (ó pesadelo), perguntei com uma voz falsamente segura pela pessoa que procurava. Ela levantou-se, apertou-me a mão, e guiou-me até à sala seguinte.

Entregou-me uns papeis, disse para eu os preencher, e que quando eu acabasse me explicaria em que consistia o trabalho. Fiz o que me mandaram, estranhando o facto de, num dos papeis dizer: «Contrato». Foi quando ela me começou a explicar pormenorizadamente o que eu tinha de fazer que percebi que estava, efectivamente, contratado. Eu, Rui Miguel Brás, ia oficialmente trabalhar. Batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas. Este dia devia ser feriado nacional.

Estranhei a facilidade daquilo. Arranjar um trabalho era, afinal, muito mais fácil do que imaginara. E eu, ocioso por natureza, estava empregado. Temi pela minha saúde. Mas os medos eram, afinal, injustificados: ninguém me mandou responder a questionários, ninguém me fez testes psicológicos nem provações físicas, ninguém me perguntou se tinha gonorreia ou doenças sexualmente transmissíveis. Foi tudo tão acessível e banal que era como se toda a minha vida tivesse respondido a entrevistas de trabalho. Passadas umas horas sobre o acontecimento, posso dizer que revi tantas vezes os momentos dentro daquela sala que me posso considerar um perito em entrevistas laborais.

À noite enviei uma mensagem a um amigo a dizer que arranjei trabalho. Respondeu-me, preocupado, tentando avisar-me: diz que sabe de pessoas que se meteram nisso e só largaram aos sessenta. Tenho medo.
A ler: Having the time of my life, by Art Buchwald.
A ler: A cabeçada (uma reflexão mais inteligente e menos fantasiosa que a minha).

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Zizou: Rousseau Revisitado.

A cabeçada de Zidane merece mais atenção. Porque é, não um fenómeno futebolístico, mas um fenómeno cultural.

Ninguém reparou na cabeçada, só em Materazzi estendido no chão, e só uns minutos após a agressão. Só depois, muito depois, demasiado depois, apareceram as explicações e se tomaram as devidas medidas. Muita gente vê na cabeçada de Zidane uma forma triste de se despedir da selecção e das competições internacionais pelo seu país. Outros, mais simplistas, vêem um barbarismo sem explicação. Alguns, mais vagos, vêem na atitude de Zizou uma parvoíce completa. Eu vejo muito mais que isso: eu vejo a revisitação da cultura francesa.

Na cabeçada eu vejo o mito do Bom Selvagem aplicado na perfeição: foi a pressão social do evento, meus caros. Ah, a maldita civilização. Zidane sentia-se oprimido: libertou-se das amarras civilizacionais e deixou o selvagem em si falar mais alto, mostrou-se a si mesmo em toda a sua pureza bárbara. Se isto não é Rousseau em prática, não sei o que será. Mas ninguém prestara atenção à cabeçada até ver Materazzi no chão: da mesma forma, ninguém se incomodou com as ideias selvagens de Rousseau até ao aparecimento de Hitler e do Nacional-socialismo, que, segundo explica Victor Klemperer, é a aplicação rigorosa dos ideais defendidos pelo filósofo francês.

Zidane demonstrou que não é apenas um génio futebolístico. Zizou é também um conhecedor da cultura francesa (é até curioso que seja argelino) mas, principalmente, um bom francês: alguém que desconhece a palavra moderação.
A ler: Futebol, sexo e milagres, por João Pereira Coutinho.
Verão.

Foi há pouco tempo. De há uns anos para cá tem vindo a tornar-se mais forte, até que este ano se manifestou em força: detesto o Verão. Há razões óbvias: o calor. A culpa, segundo dizem, é do aquecimento global. Mas isso é recente, e a História desmente os argumentos ambientalistas: Portugal, bem como os seus parceiros mediterrânicos, sempre foi mais aparentado a uma República das Bananas do que a um país civilizado. E isso, tenho em crer, deve-se em muito ao clima. Já falei disto, e é tão claro que nem precisa de ser rebatido: compare-se os países frios com os quentes, índices de desenvolvimento económico e social (coladinhos um ao outro, claro), e vemos que os países miseráveis e bárbaros são geralmente quentes, e que os países desenvolvidos e civilizados são geralmente frios. Há toda uma gama de cinzentos, intermédia, mas o preto e branco existem, e é só comparar. Mas divago.

O calor tem consequências civilizacionais nefastas. Basicamente: as pessoas despem-se. No caso dos homens, andam de calções e camisa desabotoada, a mostrar as pilosidades, um espectáculo medonho, um teatro de horrores, um flagelo estético. No caso das mulheres é uma afronta: uma provocação demoníaca, de decotes estonteantes, de ombros que espreitam, de umbigos à mostra, de pernas que passeiam (ah, Baudelaire), de bronzeados perfeitos, tudo invenções mefistofélicas que fazem a libido disparar, que nos fazem sofrer, que transformam os homens deste Portugal em cães pavlovianos salivando por um pedacinho de carne. Mas há mais: a canícula faz-nos suar em bica, tomo banho e dez minutos depois já sinto que preciso de mais um. Sinto-me porco, um javardo, quase um activista do Green Peace.

Outra razão para detestar o Verão é a praia. Não necessariamente o sítio, que eu até gosto do mar, apesar de não tolerar a areia. O meu problema é o excesso de pessoas por metro quadrado, as imensas migrações para as praias: as invasões bárbaras modernas. Se a praia já é um atentado civilizacional, o tão português «fazer praia» é o apocalipse.

No Verão há uma coisa curiosa: que é fingir que se faz alguma coisa diferente do que se fez durante o ano inteiro. Há leituras de Verão, há lugares de Verão (mesmo dentro de um país pequeno como o nosso), há questionários de Verão, há versões veraneantes de tudo. E normalmente, a versão é para pior. Fingimos mudar os nossos hábitos durante o mês de férias, mas para nada. É mesmo só fingir. Levamos a «casa às costas» para o destino onde vamos passar férias, e o que muda é só mesmo o sítio. Quem se põe com a conversa das leituras de Verão é gente que não lê durante o ano inteiro, e que, pasme-se, não vai ler coisa nenhuma durante o Verão. Lê um capítulo, dois. Nunca mais de cinquenta páginas, que ler cansa e o Verão é para descansar. Quem vê televisão o ano todo, em Lisboa, vai ver televisão durante um mês, para o Algarve. O próprio Algarve agora é praticamente insuportável: como dizia a Maria Filomena Mónica, a «época de ouro» do Algarve nunca existiu: antes era pobre, piscatório e pouco explorado; agora é rico, turístico e demasiado explorado. Há sítios caóticos já de si, mas os lugares-destinos de Verão tornam-se instantaneamente irrespiráveis e inadmissíveis na época balnear. Um pandemónio onde a populaça assenta para passar um mês a «fazer praia» e a ver televisão, mas no Algarve (o que, de uma forma que eu não entendo, é como se mudasse o conteúdo dos programas e a natureza das praias).

No Verão até as notícias são ridículas. O mundo parece que pára. É a chamada silly season. Não há nada de sério a acontecer no Verão. Chamem-me austero, mas gosto da rigidez do inverno. O Verão aborrece-me de morte. A leviandade de tudo acende em mim vontades homicidas. Porque nem sequer é descontracção: todos os portugueses, por altura do Verão, estão preocupadíssimos em aproveitá-lo, em descontrair, em relaxar. Uma preocupação frenética, talvez mais nervosa e urgente do que a preocupação com o trabalho. Que os deixa, evidentemente, em stress. E que, em última instância, os faz não aproveitar as férias.

Este é o primeiro Verão que fico em Lisboa. O discurso é conhecido, mas não é por ser repetido que se torna cliché e que perde a legitimidade: eu já começo a notar, e é bom, é muito bom. Cinemas vazios, menos trânsito, restaurantes decentes sem ter de esperar. Lisboa, assim, até parece civilizada. Eu rejubilo. Lisboa é minha. Eu sou dela. E o nosso romance ainda só está a começar.
A ler: Meias-verdades e Censura, por Rui Rio.

Domingo, Julho 09, 2006

A ler: Hume and Chomsky.

Sábado, Julho 08, 2006

A Máquina de Gonçalo Tavares:

Ouvi certo escritor (não me recordo qual), numa entrevista, a dizer que os escritores devem escrever e não falar, porque quando falam, geralmente, dizem disparates. Há casos de bons escritores que são também bons oradores, mas contam-se pelos dedos de uma mão. Nabokov, por exemplo, no livro/entrevista Opiniões Fortes, respondeu por escrito a todas as perguntas (o que tornou evidentemente o livro mais interessante do que se fosse uma entrevista convencional).
Tudo isto para dizer que Gonçalo M. Tavares meteu a pata na poça. Eu não vi a entrevista na 2:, mas, se a Susana Viegas transcreveu, ipsis verbis, o que ouviu, tenho objecções. Gonçalo M. Tavares diz não se interessar pela biografia de um autor, alegando que os textos valem por si. A frase tem duas orações, bem divididas, que nem se deviam relacionar. Que o Gonçalo não se interesse pela biografia de um autor (facto que não compreendo, já que sou um devorador de biografias), eu aceito, e não tenho nada com isso (há quem goste de Tonicha; há quem não goste de Woody Allen; há gostos para tudo). Mas a primeira frase não se justifica com a segunda. Que os textos valem por si (alguns) todos sabemos. Se não soubéssemos, não gostávamos de literatura.
Volto sempre a Kafka: o mito do eterno retorno funciona comigo a este nível, nada a fazer. E sou o primeiro a dizer que os textos de Kafka valem por si: para mim, os textos de Kafka valem por si e por muito mais. A questão é esta: quando li A Metamorfose pela primeira vez não sabia nada do autor. Dois ou três meses depois, já sabia o suficiente sobre Kafka para olhar A Metamorfose de forma diferente. Não é apenas a melhor compreensão: é a satisfação de adivinhar e de imaginar o que levou o autor a escrever o que escreveu. Ser leitor não é fácil. Não é: para se ser leitor não se pode apenas ler, tem de se reescrever, e não é na nossa perspectiva: é na do autor. E para isso, temos de saber o mínimo. Na avaliação de um escritor a biografia conta pouco, isso concedo. Mas na actividade de leitor, a biografia não só ajuda, é um desafio, e é infinitamente gratificante encontrar os pontos em comum. Não por acaso, um dos livros mais impressionantes de Kafka é a Carta ao Pai, ou ainda os Diários (mas em Kafka sou apaixonadamente parcial, tudo para mim é maravilhoso). Ler Lobo Antunes sem saber que é psiquiatra, que trabalhou no hospital Miguel Bombarda, que esteve na Guerra Colonial, é ler Lobo Antunes sem um elo (e, neste caso em particular, é bastante difícil a compreensão sem um mínimo de biografia: Lobo Antunes é hermetismo vintage, e eu só compreendi verdadeiramente o livro Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, quando soube que foi o primeiro livro escrito pelo autor após a morte da mulher). Ou Dostoiévsky: lê-lo sabendo que esteve condenado à morte e foi salvo no último minuto antes da execução, é compreender melhor os seus escritos, é conhecer o porquê da sua mundividência (e há ainda o caso particular d'O Jogador, que é mais auto-biográfico do que a restante obra, e do que os livros em geral são). Há imensos casos, todos de uma evidência espalhafatosa. É o «óbvio ululante» de Nelson Rodrigues.
Atenção: é claro que há autores com biografias enfadonhas e sem grande interesse, e eu não peço que sejam consumidores massivos de biografias, nem que se interessem por pormenores ínfimos das vidas dos autores. Mas não dar importância à biografia de um autor, não se interessar minimamente pelo seu percurso, é amputar, a si como leitor, metade do prazer de ler um livro. Eu, pelo menos, não leio só para aprender. A literatura dá-me prazer porque é um desafio à percepção. A sabedoria é outra questão.
O tal escritor que ainda não me lembrei quem é tinha razão: os escritores deviam permanecer calados. Eu não sei quase nada da vida do Gonçalo M. Tavares. Prometo informar-me.
Frustração:

Bem sei, bem sei: a adolescência diz-me pouco. Quase nada. Mas há vezes (oh, ele há vezes) em que sou derrotado pela própria condição de adolescente. Sexta-feira à noite, a mãe foi para a borga com as amigas, e eu, taciturno e solitário, vagueio por aqui. Preparo o jantar com cuidado e aprumo, comporto-me civilizadamente, mas é impossível fugir à derrota: a mãe sair e eu não é como aquele penalty, correctamente marcado mas com o saborzinho amargo da injustiça. Ainda tentei: telefonei à amiga, a saber se queria ir jantar fora. Nada: a mãe ia sair com umas amigas e ela tinha de ficar a tomar conta do irmão mais novo. Que mundo é este?

Sexta-feira, Julho 07, 2006

A ler: No Puede Ser.
Um ano depois.

Faz hoje um ano que Londres sofreu os atentados terroristas. Um ano depois, percebe-se que a civilização venceu a selvajaria: «Ontem, ao final da manhã, era difícil acreditar que, em Tavistock Square, um autocarro explodiu há um ano. Não há quaisquer sinais da tragédia e só o aparato gerado pela presença de uma cadeia de televisão norte-americana interrompia a tranquilidade dos escritórios envolventes» (Diário de Notícias). De facto, a única forma de sobreviver à barbárie é não quebrando a rotina, é continuar como se nada tivesse acontecido, como se o sucedido não tivesse importância. Porque não tem: o que são segundos de horror contra séculos de civilização?
Os blogs.

As pessoas que não lêem blogs não compreendem o fenómeno. Onde eu e mais gente vemos um fenómeno cultural, a maioria das pessoas vê umas páginas da Internet sem interesse. Para quase toda a gente que não está dentro do meio (chamemos-lhe assim), os blogs são sítios onde os amigos põem as fotos das férias, ou onde a filha adolescente conta as suas desventuras amorosas ornadas com erros ortográficos. Os blogs também são isso, mas não é disso que falo, e não é essa a riqueza da blogosfera (palavra maravilhosa, é preciso dizê-lo). As pessoas não sabem (nem querem saber), nem entendem, que na blogosfera se escrevem coisas mais interessantes que em grande parte da imprensa, com mais coragem, mais estilo, mais criatividade. É já raro comprar imprensa nacional: se ainda compro, é para ler um ou dois cronistas. E, por vezes, dispenso (já que as notícias posso ler na net, em páginas actualizadas de hora a hora). Mas os blogs não dispenso: sei que todos os dias há entradas novas para ler, textos pertinentes e bem escritos, seja sobre que assunto for. Os blogs, como alguma imprensa estrangeira (alguma disponível gratuitamente aqui na net), são leitura diária obrigatória.

O principal argumento contra a credibilidade da blogosfera é, não o anonimato, mas o amadorismo. Isto é: os desconhecidos. Da quantidade de blogs que leio, a maior parte deles são de gente que não escreve na imprensa. Mas isso não prova nada, nem significa nada: muitos dos bloggers que admiro são desconhecidos e ainda assim mereciam um lugar na imprensa, chutando para fora dela muitos parasitas insuportáveis. Mas nem é preciso ir tão longe: há quem escreva na imprensa e, simultaneamente, escreva em blogs. E escreva bem. O Pacheco Pereira e o Pedro Mexia, o Eduardo Pitta e o Pedro Lomba. Entre outros. A total liberdade que existe na blogosfera é vista como um entrave: há muita porcaria, muita adolescência, muitas coisas desinteressantes, mal escritas, banais. Mas para isso existem filtros: outros blogs e páginas criadas de propósito para guiar o leitor aos blogs mais lidos, mais interessantes, mais cosmopolitas e visitados.
Muitos intelectuais da nossa praça não levam os blogs a sério por arrogância, e, talvez, um pouco, por inveja. Pior para eles.

A marginalidade da blogosfera confere-lhe um estatuto glamoroso, mas, como blogger, não deixo de me sentir injustiçado com essa condição de semi-obscuridade. Declarar em público, mesmo entre gente instruída, que se tem um blog, não causa efeito nenhum, ou talvez dê azo a um certo escárnio. Quando deveria gerar curiosidade, por mínima que fosse. Mas não gera.
Com alguma tristeza, prevejo que a blogosfera permaneça assim, marginal e subvalorizada, por muito tempo. Sejamos sinceros: as pessoas não se interessam. Tudo o que seja difícil, tudo o que constitua um desafio, tudo o que exija pensamento e esforço intelectual é imediata e totalitariamente afastado dos interesses comuns. Tal como as pessoas não se interessam por literatura, não se hão-de interessar pelos blogs. Sempre foi assim, há-de ser sempre.

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Praia.

Chega um momento em que temos de engolir as próprias palavras. Como nos jornais sérios (e no Expresso também), abro aqui a secção normalmente apelidada «Erramos». Mais concretamente, eu errei: há tempos disse que o futebol era o contrário de civilização. E errei porque não fui totalmente correcto no que disse. O futebol é, normalmente, um limite à civilização, porque mobiliza a euforia patriótica no seu pior, e porque é capaz de transformar os cidadãos da mais antiga democracia do mundo em hooligans, entre outras coisas lamentáveis. Mas o futebol não é o oposto directo da civilização. O Mundial e esta bandalheira toda à volta dele levaram-me ao excesso retórico, e é por isso que peço desculpa.

Agora que estou mais esclarecido, e que acalmei os nervos salientes, agora que o Mundial já vai avançado e que já encaro a euforia nacional como um facto consumado, agora que chegámos a um «point of not return», já não há grande lógica na minha cruzada anti-futebol. E isso leva-me ao meu próximo ponto: forças que me ultrapassam em transcendência e poder levaram-me ontem, contra a minha vontade e sem que eu desse por isso, à praia. Horror.

A praia é o escape popular por excelência, uma demonstração grotesca da natureza humana (santa redundância), um espectáculo arrepiante. Sem que eu desse por isso, estava em Cascais, felizmente preso a umas calças de ganga, a uma t-shirt preta e a uns ténis. A namorada também estava prevenida. Podia ter sido pior: fatos de banho, chinelos e camisas havaianas. Mas graças a Deus estávamos livres desses elementos diabólicos, como sejam os protectores solares ou as toalhas de praia.

Só me consigo lembrar de uma coisa boa na praia: os biquinis. Cascais é um lugar intermédio: há beldades e mostrengos. O problema é mesmo este: as beldades, por mais que sejam, nunca chegam para atenuar a visão de um mostrengo. Eu tenho preocupação estética (razão pela qual mantive a minha t-shirt vestida); há pessoas que claramente não têm. E como não bastasse este desequilíbrio injusto, há ainda mais um peso no lado mau da balança: os homens. Os homens têm uma horta plantada no peito e, por vezes, nas costas. Ou, em alternativa, são depenados e luzidios. Ou então rapam-se. Um teatro de horrores. Por mais que tente, não consigo encontrar razão nenhuma para as mulheres gostarem de nós. Mas gostam, e eu agradeço.

Para provar que a praia é o oposto directo da civilização, basta pensar que os países mais civilizados, onde as pessoas sabem comportar-se, são bem-educadas, e sabem comer de garfo e faca, são países onde não existe praia. Reparem que eu não disse costa: o Reino Unido tem costa, mas não tem praia. A temperatura não permite, graças a Deus. Como o Reino Unido, há a Suécia, ou a Bélgica. Até os Estados Unidos são mais civilizados em Washington do que em Miami. É elementar, caro leitor. Os países tradicionalmente conhecidos pelas suas estâncias balneares são pobres, pouco desenvolvidos e, fora dos hotéis, habitualmente grotescos. Paraísos naturais, sem dúvida: destruídos pela pobreza dos povos. A comparação serve para a Europa também: entre a Inglaterra e Portugal, qual é o país mais desenvolvido? E entre a Suécia e a Espanha? E entre a Alemanha e a Itália? E entre a Bélgica e a Grécia? A resposta é tão óbvia que nem merece discussão.

Mas o pior da praia não é o desequilíbrio estético, e para explicar o que há de errado com a praia não basta comparar sociedades desenvolvidas com sociedades em vias de desenvolvimento. Porque o pior da praia são as pessoas, todas elas, os grupos, os jogos, a barulheira, as correrias, tudo. O grupo de rapazes que chuta a bola para cima das nossas toalhas. As mães aos gritos com os filhos que gritam com as mães. As raparigas que riem estridentemente e que se fazem ouvir no outro lado da praia, a trezentos metros. As conversas que ouvimos pela proximidade das toalhas, tão perceptíveis como indesejáveis. O grotesco dos assuntos, a futilidade, o praguejar, os «hádes» e «fizestes». E depois há sempre aqueles namorados que atiram água um ao outro e entretanto molharam toda a gente num raio de cinquenta metros. Ou então aquele típico grupo de rapazes que passeia à beira da água e é tão alarve que dá vontade de chamar as autoridades competentes para os levar de volta para o zoo. E há sempre um engraçadinho que atira areia a outro engraçadinho, e que desperta em qualquer pessoa uma vontade incontrolável de homicídio.

Não sei porquê, mas as pessoas mostram o que têm de pior na praia. Mais do que no futebol. Talvez o futebol inclua mais espalhafato, mas é um caso à parte: porque é a celebração de uma vitória, ou a indignação de uma derrota. Mas na praia não: na praia é a normalidade que assusta, a normalidade grotesca da natureza humana, e que, quando as pessoas estão vestidas e a trabalhar, não notamos, porque está implícita, obrigatoriamente mais escondida. Na praia, é o lazer, e o lazer é um espectáculo que não é agradável.

E depois há ainda a areia, que é de longe o mais incomodativo dos pisos. A areia consegue enfiar-se em qualquer sítio: tomo banho mal chego a casa, esfrego-me violentamente, e quando o cabelo seca, descubro ainda uns grãos atrás das orelhas. Durmo sobre uma ilusão de higiene e limpeza. Mas no dia seguinte, miraculosamente, os lençóis estão cheios de areia.
A ler: cinismo bem temperado.

Terça-feira, Julho 04, 2006


Por alguma razão que nunca consegui explicar a ninguém nem a mim, sempre tive um fraquinho pelo futebol italiano. Está na hora de assumi-lo: para o bem e para o mal, este blogue está, a partir de agora, de corpo e alma, com a sua selecção.
Retórica.

A teoria da conspiração é um lugar-comum do comentário político. De vez em quando lá aparece um ou outro colunista empertigado com a cassete do costume: somos escandalosamente manipulados pela comunicação social. Há os moderados, que apontam a parcialidade do jornalismo, a falta de objectividade (Dear God: o que é isso da objectividade?), a informação tendenciosa. E há também os alarmistas paranóicos (que deviam estar internados em hospitais psiquiátricos ao invés de escrever crónicas em jornais). Estes segundos são muito interessantes, porque nos dizem que as notícias são inventadas, que é tudo uma farsa diabolicamente planeada. Uma maravilha retórica, sem dúvida. Um pouco fantasiosa (decerto que o escriba andou a ler 1984 vezes demais e baralhou tudo), mas ainda assim, uma prosa com piada. O problema é que os escribas missionários da teoria da conspiração não estão a ser irónicos, acreditam mesmo no que dizem. Caso clínico, pois claro.
Mas o curioso disto tudo é que as missivas com tara persecutória servem sempre para justificar um resultado eleitoral que deixou o escriba desgostoso ou uma opinião contrária à sua expressa por um qualquer plebiscito. Resumindo: o partido a que o escriba está ligado (directa ou indirectamente) perdeu as eleições, uma causa a que era particularmente afecto foi posta de parte através de uma consulta à população. Coisas deste género. É então que o escriba vai à gaveta, tira o «Manual da Teoria da Conspiração para Colunistas», e está pronto para os argumentos do costume. Este recurso de estilo (chamemos-lhe assim) é, então, um recurso de perdedores, visto que um vencedor não se vai dar ao trabalho de acusar as instituições e estruturas que lhe permitiram a vitória.
Mas este recurso é uma atitude cobarde. Acusar a comunicação social de manipulação é o mesmo que chamar bois-cavalos aos que vêem e lêem notícias e acreditam nelas (e mesmo aos que reflectem sobre elas); é atribuir ignorância à vontade eleitoral da maioria; é o mesmo que acusar os eleitores de não saberem o que querem. É, em poucas palavras, desacreditar a democracia.
Normalmente esta desacreditação vem de admiradores de democracias duvidosas (nome moderno para designar as ditaduras). É uma incapacidade comum, a de aceitar o espírito democrático: assim que o povo expressa uma opinião diferente da nossa, sentimos uma vontade imediata de chamar o povo de ignorante, manipulado, cego, iludido (porque não pensa como nós), e de acusar os órgãos informativos pela «deriva» demonstrada nas eleições.
É muito mais fácil mandar as culpas para as costas largas da comunicação social e ser adepto de teorias da conspiração, do que admitir a (por vezes cruel) verdade: o povo escolheu, o povo quis, o povo decidiu. Escolheu mal? Escolheu bem? Irrelevante para a questão: para o bem e para o mal, a democracia é isto. Há populismo e demagogia? Claro que há, mas a ausência de liberdade tem consequências mais graves que a retórica.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

On spec:

Two weeks ago I mentioned here the Venezuelan President Hugo Chavez; I think he is the international Left's best hope at present: anti-American without being Bin Laden.

Frank Johnson, The Spectator, 13 May 2005.
A ler: Cult of impersonality, by Leland de la Durantaye.

A ver: De 4 a 18 de Julho decorre o Festival de Almada, maioritariamente dedicado a Beckett - pelo centenário este ano -, mas com outras preciosidades. Por exemplo Rhinocéros, de Eugène Ionesco, no Teatro Nacional D. Maria II (dias 13 e 14), a preços apetecíveis. Faltar, é uma heresia. Eu estou lá.
Acabou. Espera-se a qualquer momento a notícia de regresso.

Domingo, Julho 02, 2006

A ler: The founding fathers, by Andrew Sullivan.
Relato mais ou menos ficcionado:

Dois dias antes da demissão de Freitas do Amaral ser apresentada recebi uma chamada aflita do nosso Primeiro-Ministro. Tinha acabado de chegar a casa e estava a petiscar qualquer coisa quando o telefone tocou. Número privado. Estranhei. Atendi ainda com a boca cheia.

- Estou sim?
- Estou sim, Rui, fala o Zé, o Primeiro-Ministro. Preciso da sua ajuda.
- Desembuche, homem.
- Pronto, cá vai: eu preciso que o Rui, do topo de sua genialidade e de sua cultura vastíssima, pense numa forma de abrandar a euforia nacional por causa do futebol. É excessivo: eu já tinha de ver a bandeira portuguesa (que é feiíssima, você não acha?) todos os dias no parlamento, agora tenho de vê-la um pouco por todo o lado. Eu não aguento Rui, não consigo. Preciso de uma remodelação bombástica no executivo, de uma medida polémica, qualquer coisa. Por favor Rui, com todo o seu génio criativo, ajude-me.
- Caro Zé, here's my thought: coragem não é o seu forte, sejamos sinceros. Por isso ponha de parte as medidas polémicas, que para escândalo chega o facto de ter entregue a pasta da Educação a uma mentecapta. Você precisa de uma demissão.
- Mas quem, Rui? Quem?
- Calma Zé, calma. Eu cinicamente lhe diria: a Ministra da Educação (você sabe que não posso com ela). Mas ela não interessa a ninguém. E uma vez fora da protecção governamental, seria linchada em praça pública, sofreria atentados vários, ou teria de ser internada num hospital psiquiátrico (Miguel Bombarda, de preferência). Por isso, deixe-a estar. Podia despedir o Ministro das Finanças. Que é uma pilinha murcha. Um medroso. Como o Zézinho, no fundo. E aquele cabelinho branco raso dá um ar de skinhead reformado: tão deselegante... Mas adiante: eu acho que você devia despedir Freitas do Amaral.
- O Freitas? Porquê? Gosto tanto dele... [oiço do outro lado da linha os soluços comovidos de Sócrates]
- Vocês podem continuar a jogar playstation depois da demissão, nos tempos livres, tenha calma Zézinho.
- Ah, Rui, você às vezes prega-me cada partida. Quase me matou do coração: perder aqueles momentos de convívio era perder a alegria de viver.
- Sim, cale-se, poupe-me, deixe-se disso. Você devia despedi-lo. Ele é um socialista genuíno, e o programa liberal do governo deixa-o desconfortável. Não encaixa. E ainda para mais aquela questão da tolerância com a barbárie muçulmana contra os cartoonistas dinamarqueses, que blague.
- Se tem mesmo de ser...
- Pois. Olhe, mas faça com que seja o Freitas a demitir-se. Convide-o para um jogo de playstation em que o Zézinho seja craque e aposte o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele perde. E terá de apresentar demissão.
- Você é um génio, Rui.
- Eu sei, eu sei. Olhe: faça com que os motivos da demissão sejam de saúde (está na moda e é muito Século XXI). E, isto é importante, especifique o motivo, sem ser excessivo nem parecer um farmacêutico. Uma hérnia, uma pedra num rim, problemas de coluna. Coisas dessas.
- Farei, farei tudo o que me aconselhar.
- Mas agora deixe-me ir tomar um banho. Estou exausto e você ainda me vem maçar: meu génio não suporta quatro horas de apoio de Geografia (culpa da sua Ministra e dos examezinhos sem pés nem cabeça que ela idealizou), e ainda mais aconselhamento de Estado. Poupe-me, meu caro. Vá à vida. Deve ter concerteza mais que fazer.
- Nem por isso. Mas, Rui, seja sincero, e do alto da sua sabedoria, diga-me: acha que vai resultar?
- Eu não teria muita esperança, meu caro. O futebol toma conta do país, o povo está vidrado e não pensa noutra coisa. A civilização está pela hora da morte. Por isso, não conte com muitas ondas. Mas pelo menos vai ter o Pacheco Pereira fulo, o que é sempre engraçado. E agora vá trabalhar que é para isso que lhe pagam.
- Obrigado Rui, como lhe posso agradecer?
- Olhe, pode, por exemplo, desligar o telefone.
- Ah, nesse caso eu desligo. Tenha uma boa noi...


Entretanto tive de desligar porque já não aguentava a voz nasalada e irritante do Primeiro-Ministro. É simpático mas cansativo. Muito chatinho mesmo. Fiquei aborrecido de morte para o resto da noite.

À meia-noite, estava eu estendido na cama a ler, recebo uma SMS. Uma mensagem de boa noite. Adivinhou: foi dele mesmo. Vinha munido das suas cordialidades infantis e aborrecidas. Eu apanhei um susto. Minha cabeça tombou e bateu na mesa-de-cabeceira. Desmaiei. Acordei no dia seguinte, em sobressalto, de um sonho com Eva Braun.

Sábado, Julho 01, 2006

A ler: Is Bush a Socialist?, by Andrew Sullivan.
A ler: Thus Ate Zarathustra, by Woody Allen.
A selva.

Sei que há gente à espera que eu lance o meu ácido. A selecção ganha, a festa sueva começa, e isso costuma ser sinónimo de que aqui o escriba tem trabalho a fazer: burilar as frases até à corrosão; sarcasmo até no ínfimo pormenor de linguagem; defender a civilização com unhas e dentes; enojar-me com a futebolândia (o normal). Mas começo a ficar velho para estas coisas: já não há disposição, nem vontade, e com a idade uma pessoa habitua-se a suportar e tolerar a barbárie. Mas não hoje.

Hoje não houve Fnac que me protegesse. Até a namorada estava interessada no resultado: não vi o jogo por um triz. Temi pela minha vida.
Os noventa minutos decisivos para o futuro da nação. O jogo começa. O Portugalinho exalta-se. Eu choro.
Durante o jogo, nervosismo à flor da pele: o meu, claro. Cada segundo foi penoso: a saúde da rainha é frágil, a senhora já não vai para nova, e a idade, como se sabe, não perdoa. Estava com o coração nas mãos: a Segunda Guerra Mundial aguenta-se bem, mas perder para a selecção portuguesa duas vezes nos quartos de final é coisa para deitar sua majestade abaixo. Entretanto Freitas do Amaral sai lesionado, entra Luís Amado em substituição. Ricardo defende três penáltis. Estamos nas meias-finais.

Os gritos e as buzinas começam a sinfonia do holocausto. Temo o pior: uma Terceira Guerra Mundial; prevejo um inverno nuclear; em poucos meses, o fim do mundo. Oiço alguém gritar sem vergonha: «bebemos a laranja e agora comemos os bifes». Ah país de poetas. Começo a perder a esperança. Vejo em cada bandeira o fim da civilização (ou do que restava dela). Rousseau revisitado. Todos os portugueses são, até ao próximo jogo, bons selvagens. Imagino, de lágrimas nos olhos, os portugueses comendo sem talheres, cuspindo para o chão, coçando as zonas genitais. Entendo segundos depois que isso é o habitual: e aterrorizo-me ao pensar no que virá por aí.
Automóveis cobertos de vermelho e verde tomam a cidade de assalto. Principais armas: buzinas e gritos, e orgulho nacional. A cidade transformada num imenso zoológico. A cada vitória, os festejos tornam-se mais violentos, mais assustadores, mais bárbaros. A selvajaria faz-me ponderar a emigração.

Chego a casa exausto. Ainda oiço os animais selvagens lá fora. O desespero toma conta de mim. Penso uma última vez na queen Elizabeth. Terá sobrevivido, a pobre coitada? O suicídio mostra-se, por fim, como a única solução possível.

Sexta-feira, Junho 30, 2006

A ler: O respeito do Sérgio.
Diário, 30 de Junho, 2006:

Faltam agora oitenta minutos para terminar o tempo de exame. Utilizo a folha de rascunho ainda em branco para vos escrever, como para me entreter: esperam-me longos minutos de aborrecimento, de desespero, de silêncio. Resta-me a escrita, sempre a escrita: a estória da minha vida, caro leitor.
O exame é evidentemente pequeno para as duas horas que lhe são destinadas. A lentidão de pensamento que me permitiria ocupar as duas horas, cento e vinte minutos, do maldito exame, só seria conseguida após a terceira noite consecutiva sem dormir. E pensar que abandonei o Evelyn Waugh a meio de um capítulo, pela pressão totalitária do remorso, madrugada adentro, insónia profundíssima: a urgência prudente do sono e do descanso.
Interessa a disciplina? Geografia, para que saibam. Cinquenta por cento de escolha múltipla, uma valente e insolente cagada. Mas pior: que sei eu, lisboeta há mais de duas gerações, da área metropolitana do Porto? Claro, podiam ter-nos avisado, mas como é usual no nosso país, não havia directrizes, nem provas modelo, nem critérios específicos: os professores que se amanhem, logo, os alunos que se amanhem. (e desde segunda feira que oiço uma quantidade de professores a queixar-se da incompetência e da «delegação irresponsável», dito assim mesmo, do ministério. Ouvi também que a ministra, pelo telefone, declarara a incompetência dos professores sem pudor nem respeito).
Toda a gente sabe que não existe política educativa em Portugal: a cada novo governo há uma nova reforma, conforme a vontade do ministro e o nervoso-miudinho de querer mostrar serviço. E mostra muito bem: uma desorganização tipicamente portuguesa, alunos desnorteados, professores indignados. Depois, vem o melhor: exames que se resolvem em vinte minutos e insultos aos professores. Segundo consta, havia erros graves (questões insolúveis) na prova de química. Não perca os próximos capítulos.
Entretanto, passaram-se dez minutos. No entanto, só eu e outro aluno terminámos a prova. Wishful thinking: muitos dos meus colegas não dormem há mais de setenta e duas horas (prefiro ser avestruz a aceitar a crueldade dos factos).
Facto penoso: há decotes a menos e semblantes sérios a mais. O nervosismo deu lugar ao aborrecimento, e a vontade homicida é uma «rising tide» no meu mar (habitualmente) morto.
Olho pela janela, e antes que me apeteça cair em lugares comuns, vejo o que naturalmente se vê pela janela de um segundo andar, sem poesia: topos de árvores (folhas que caem em pleno Verão, could it be?); o céu azul (azul, só isso, nada mais. Deus, não nos deixes cair em tentação kitsch: o céu azul é só o céu azul) e até que está bonitinho (oh crap); o sol (sem mais).
A vergastada prosaica da realidade fora da janela deixou-me a pensar na poesia de Mao Tsé Tung; e nos jantares em que Hitler se fazia acompanhar das sonatas de Mozart; e nos romances acalorados de Estaline. Há quem se escandalize: mentes impressionáveis e pessoas medrosas. Porque a humanização dos tiranos acarreta um fardo para os comuns mortais: não foi um ímpeto diabólico, ou a loucura, que os levou a exterminar milhões de pessoas. Foi um pensamento racional, com base ideológica, que levou Hitler a destruir a Europa. Hitler, como nós, é humano (demasiado humano), nada mais que isso, nada menos que isso. Custa aceitar que Mao Tsé Tung escrevesse um poema e depois mandasse executar umas centenas de camponeses. Custa aceitar que Hitler mandasse para a câmara de gás milhares de judeus, e depois do dia de trabalho árduo, ouvisse Mozart ao jantar, para restabelecer as forças dispendidas. Custa, mas é salutar compreender que Hitler, você e eu, somos farinha do mesmo saco. Enquanto desculparmos atitudes criminosas com loucura e desumanização, o mundo está condenado.
E quanto à suposta oposição entre cultura e extermínio: não existe oposição, ou relação. Uma pessoa culta não é necessariamente uma pessoa boa, e vice versa. Há assassinos cultos e canalhas intelectuais. E ainda assim, como diria o poeta, Jesus «não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca».
Eu mesmo, enquanto me lembro do Evelyn Waugh abandonado por sobre a secretária, tenho vontade de fazer tiro ao alvo a esta gente toda que não me deixa sair daqui.
O rei do bolo.

Ainda não me habituei a Cavaco. É uma frase estúpida, mas diz a verdade. Porque, na minha cabeça, Jorge Sampaio ainda é o Presidente da República Portuguesa. Como explicar o facto?
Jorge Sampaio era um cobarde, uma pilinha murcha a nível diplomático, um chato, com retórica enfadonha, simpático mas confuso, um dildo (e reparo agora que usei duas vezes a iconografia sexual nesta caracterização). Cavaco não lhe fica atrás em matéria de inconvenientes (com a agravante de ser mais feio, e com a atenuante de a mulher dele não promover desfiles de moda).
Mas como disse, não é uma questão valorativa: é hábito, puro hábito. Estou habituado ao nosso antigo Presidente, e de cada vez que leio um texto que menciona o cargo, é em Sampaio que penso. Depois o milagre acontece: o nome de Cavaco é mencionado, mais à frente, noutro parágrafo, e faz-se luz nesta cabeça oca.
Mas na verdade tanto me faz. Um como outro: são figuras sem charme e sem poder. Quando Sampaio foi eleito eu ainda estava na segunda classe, e, como é evidente, estava-me nas tintas para as eleições. Já estas últimas deram-me gozo: o pateta Alegre (a outra face do poeta Alegre) e o apelo progressista; o mp3 com o apelo a qualquer coisa que ainda não se descobriu o que seja; e o silencioso professor de economia, o idealista e empreendedor Cavaco. A cotação alta do pateta fez-me tremer. O mp3 estava visto que não ganhava, não foi surpresa (as mascotes não ganham: são miss simpatia). Como era mais do que óbvio: só podia ganhar o idealista. Chato é que idealismo e vontade de trabalho não sirvam de nada para o cargo a que Cavaco se estava a candidatar. Um presidente é um presidente é um presidente (e nós não temos um regime presidencialista). Um presidente não tem poder, e ainda bem. Ao contrário do que se esperava (atentando na campanha inflamada e cheia de revisionismos), o intervencionismo tem sido nulo, e o nosso PR tem-se mantido (sabiamente) calado e, geralmente, quieto. Não admira que eu não me lembre que ele existe. Não admira que na minha cabeça ainda não tenha havido tomada de posse.
Mas toda esta confusão só prova a superioridade pragmática da monarquia. Um representante permanente livrava-me das revisõezinhas ao sótão mental. Não havia nomes diferentes de tantos em tantos anos para se denominar uma pessoa que, no fundo, fará exactamente a mesma coisa que a anterior. Para isso, mantém-se a mesma pessoa. Até ao funeral, delegando (num acto que considero poético) as suas funções (nulas, mas simbólicas) ao filho mais velho. Era mais fácil, e poupava-se o folclore das eleições, o populismo, os beijinhos, as ideias e as ideias e as ideias, que um Presidente não deve ter. Um presidente com ideias é um Presidente que quer fazer coisas. E um Presidente não pode (nem deve) fazer coisas. Exacerbar funções é abuso de poder: e o Presidente da República não tem nenhum. (O veto é fachada).
Além disso, nesta confusão dos nomes, um rei é muito mais facilmente identificado. Primeiro porque é designado apenas pelo nome próprio (já que o apelido é o mesmo há muitos séculos). E, além disso, tem sempre colado ao nome próprio um cognome, o que, como disse, ajuda à identificação, e, mais valia, tem um certo glamour jocoso. Imaginem: Mário, o descolonizador; Jorge, o indeciso; Aníbal, o [ainda é cedo para a designação].
Sei que para muita gente Cavaco é o messias. Para outros é o demónio. Para outros ainda é um alarve que gosta de bolo-rei. Sei também que no seu discurso de vitória (se bem me lembro) Cavaco prometeu ser o Presidente de todos os portugueses. Não é culpa dele: a culpa, se a existe, é minha e só minha. Mas a verdade é que Cavaco (e esqueçam as metáforas políticas) ainda não é o meu Presidente.

Terça-feira, Junho 27, 2006

Os tristes.

Como todo o homem eu vivo apaixonado pela «girl next door». Pelo estereótipo, digo, que a minha vizinha do lado tem idade para ser minha avó.
Mas compreendo, pior: padeço, do fascínio pela «rapariga do lado». A rapariga do lado encerra um imaginário da Lolita maior de idade, perigosa e apetitosamente próxima, corpo ainda tenro dessa adolescência prolongada, no auge da juventude e da vitalidade. Mas o factor decisivo é a acessibilidade fatal. Só um idiota julgaria ter hipóteses com Marilyn Monroe ou Lauren Bacall, mas o que dizer da nossa vizinha que é parecidíssima com a Kirsten Dunst? Ou a miúda da casa em frente que dá ares de Penélope Cruz?
Nesta perspectiva, a «girl next door» é o maior equívoco existente sobre o sexo feminino. A noção de acessibilidade e proximidade é apenas física. A «girl next door» é caprichosa e inatingível como todas as mulheres com consciência da sua beleza. Mais: do seu efeito nos homens. Quando, numa cena de Match Point, Jonathan Rhys Meyers pergunta a Scarlett Johansson se ela tem consciência do efeito que tem sobre os homens, ela emudece. Mas emudece porque tem perfeita consciência disso. Mais: porque essa é a sua grande arma. Mais do que a beleza. Aliás, a fala anterior à reveladora pergunta é a personagem de Scarlett a declarar que não se acha bonita, apenas sexy.
Tanta dissertação para a conclusão mais simples do mundo (subscrita por todos os homens de razão): não sabemos nada das mulheres. Não podemos, por mais tentativas feitas, saber o que passa na cabeça de uma mulher, nem entender os seus impulsos, nem vislumbrar a explicação para a sua distorcida racionalidade. Somos de mundos diferentes. Um homem e uma mulher juntos, não são uma massa uniforme. São como azeite e água (bem sei: é um cliché, mas é um cliché acertado e difícil de contornar). As substâncias nunca se misturam, embora estejam no mesmo recipiente (ao recipiente, chamemos romanticamente «amor»).
Mas o amor é coisa complicada. É preciso muita edificação. A «girl next door» é uma espécie de «proximity infatuation». Todos os dias a vemos, «nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua», como diz Baudelaire num poema adequadamente chamado «À une passante» (na tradução de Fernando Pinto do Amaral), com a sua beleza juvenil, de menina crescida e independente. Ela sorri quando nos encontramos ao pé do contentor da reciclagem, e enquanto vamos separando as embalagens do papel, nós, homens, desfazemo-nos por dentro com perguntas do género: «quando é que me digno a convidá-la para um café?», dirigidas a nós mesmos em tom autoritário. Estamos apaixonados. Nada menos que isso.
Até ao dia em que a vemos entrar em casa com um matulão obviamente culturista (e geralmente inculto), ou com o sedutor do ginásio (com a típica t-shirt do Holmes Place), ou com o quarentão charmoso (provavelmente professor de sociologia).
Não digo que todas as raparigas bonitas deste mundo sejam vazias de cabeça. Mas sejamos honestos: entre abdominais e Dostoiévsky, elas preferem os abdominais. Claro que há raparigas bonitas e elegantes que têm cérebro, gostam de literatura e dão oportunidade aos estafermos literatos deste mundo. Mas nem todos têm a mesma sorte que eu.
A «girl next door» é uma versão cruel da mulher endeusada. É uma deusa na terra, aqui ao alcance da mão, pelo menos aparentemente. Enquanto as outras, deusas que reclamam estatuto, se movem lá no Olimpo, intocáveis, estas vêm aqui dar credibilidade (ainda que infundada) às nossas fantasias. Geram um nervosismo exagerado, inquietações múltiplas, gaguez e tropeções no momento de dar os bons dias ou de dar passagem. Mas geralmente a consumação máxima destas «proximity infatuations» nunca ultrapassa a mera e inócua fantasia.
As mulheres que nos chamam a atenção pela beleza, pela graciosidade com que andam, ou pelo tremor que causam nas pernas quando sorriem, são inatingíveis. As mulheres bonitas estão reservadas aos professores de fitness e aos nadadores salvadores, a toda uma multidão de Brad Pitts e Tom Cruises plebeus, aos deuses gregos descidos à terra, cruelmente misturados com os comuns mortais. E nós, os comuns mortais, em grave desvantagem perante tal concorrência desleal, sofremos de rejeição, somos solitários, somos uns tristes.
Portugal, Hoje - O Modo de Existir # 10

Todos os textos sobre o mundial de futebol se arrumam em duas categorias: os que falam realmente de futebol e do Mundial, e os que apontam, uma e outra vez, para a paralisação nacional durante o evento.
Do primeiro grupo, tenho pouco a dizer. Sou benfiquista convicto, embora não goste de futebol: gosto é do Benfica. Já quanto à minha portugalidade, há problema(s). Além de não ser um português convicto, e ser apenas um português, let's say, contrariado, não gosto. Preferia ter nascido inglês ou belga ou alemão. Mas enfim, a nacionalidade como a família, é uma arbitrariedade. Mas por tudo isto, não há forma de me verem a apoiar a selecção. Eu nem acho piada ao Figo.
E depois há a outra parte: a euforia saloia, a festa visigoda, a bárbara gritaria quando há um golo, já discursei sobre o assunto, e vou-me repetir muitas vezes, peço desculpa. Por tudo isto, os textos que se inserem no primeiro agrupamento, não me interessam minimamente, principalmente como escritor.
Mas é no segundo grupo que se encontram as preciosidades. Dizem-nos os escribas preocupados (e chatos) que o país parou. E parou porquê? Guess: por causa do Mundial. Acho piada ao argumento, mas não partilho da mesma opinião. Primeiro porque me recuso a aceitar o futebol como motivo de paralisação de um país (se aceitasse, estava agora a tomar anti-depressivos, claro está), mas principalmente porque o país nunca funciona, com ou sem bola. Estando ou não no Mundial de futebol, Portugal está entregue aos bichos. Isto é: aos portugueses. Li por aí alguém contar um episódio que mencionava uma repartição de finanças em hora de jogo: paralisada. So what? É difícil encontrar uma que não esteja paralisada nas horas em que não há jogo: há sempre o almoço, o lanche, o cigarro, a conversa de casa de banho, a própria casa de banho, mais outro cigarro. Há sempre um empregado que delega a função para outro e este delega para outro, e este para outro ainda. E claro, as greves. As greves são o ópio da função pública. Carvalho da Silva ao poder e era o país em permanente Mundial de futebol.
Confesso: ainda não vi nenhum jogo do Mundial. Nem da selecção nacional. Vou sabendo de lesões, de cartões amarelos, de resultados: pelos jornais, pelos blogs, pela mãe, pelos amigos, pela namorada. Santo Deus, até pela namorada. Escusado será dizer que a namorada não vê nem gosta de futebol, nem sequer tem clube: mas gosta da selecção. E sempre que penso nisto, a urticária ataca. (Enquanto me coço com as duas mãos, digito o texto com o nariz). Fico confuso: pessoas que não gostam de futebol, vêem o Mundial; pessoas que não têm clube, apoiam a selecção. Sei bem que é falha minha, mas nunca vou compreender o ímpeto nacionalista que faz as pessoas vibrar com os jogos da selecção, que suscita os gritos quando há golo. Sei bem que perco uma actividade de convívio genuíno e despreocupado. Tenho outras, é certo, mas sei que nenhuma outra terá uma componente tão grande de comunhão e de alegria conjunta.
Ao menos ainda sou do Benfica. Eu e mais seis milhões.

Domingo, Junho 25, 2006

A ler: A um crítico desgraçado.
Orgulho gay, vergonha hetero:

Todos os anos a mesma coisa: Lisboa é assaltada pela marcha do orgulho gay. E eu sinto-me um imperdoável pecador, bem como um freak show de todo o tamanho. Ao ver tanta gente orgulhosa da sua homossexualidade, sinto-me subitamente envergonhado por ser heterossexual, tenho uma súbita vontade de me esconder no metafórico armário, e medo de ser atirado à fogueira por ter nascido assim. É triste ter de viver com esta degeneração da natureza: a maldita heterossexualidade.

Sábado, Junho 24, 2006

Insomniac.

Nas noites de insónia sou como um espectro a passear pela casa. Cada passo tímido ecoa pela casa inteira. Pareço uma sombra nervosa e indecisa, com medo de tudo (mais concretamente: medo de acordar a mãe, que dorme o sono dos justos). A insónia: se alguma vez me curar disto, volto a ter esperança na medicina. Até lá, arrasto-me pela casa.
Começa tudo na cama. Altruista, quero dar uma oportunidade ao corpo, e deito-me. Não tarda o revirar, o remexer, a inquietação, a impossibilidade dos olhos fechados. Tenho de me levantar. Depois, é só dar corda à imaginação: ler, ouvir música, ver dvd's, escrever, olhar para o tecto. Desesperar. O nervosismo da insónia, os olhos abertos como não estiveram durante o dia inteiro. A energia que nunca julguei ter, manifesta-se agora, a esta hora. E o que fazer com ela? Nada. Nada a fazer. Passeio pela casa, exercito os passatempos favoritos, mas pouco mais.
A insónia: enquanto ela me assaltar com esta violência, escrevo. Até ter cura, estou a salvo. E, claro, arrasto-me pela casa.

Sexta-feira, Junho 23, 2006

Again: a democracia.

Richard Morin, na sua coluna, diz que Jon Stewart e as suas piadas sobre os políticos (republicanos e democratas), levam os jovens a desenvolver opiniões cínicas sobre a política e a dizer não ao voto. Consegue ser ainda mais ridículo e trágico: na sua opinião Jon Stewart envenena a democracia.
É uma noção enraizada em muito boa gente (e em muito má gente também): a de que a democracia só existe no direito de voto. Mas esta noção é errada e anti-democrática: o direito de não votar é tão legítimo e legal como o direito de votar. Digo mais: o acto deliberado, reflectido e informado de não votar é tão democrático como o voto. É uma tomada de posição tão expressiva como o voto. E esta noção obsoleta e totalitária é um medo antigo dos políticos medíocres e dos cronistas subordinados.
Que a abstenção seja um problema com origem no desinteresse, é grave (e, quase de certeza, real). Mas culpar um comediante (e um bom, ainda por cima) pela abstenção, é baixo e ridículo.
Portugal, Hoje - O modo de existir # 9

Durante o jantar é dada a notícia: projecto da escola do futuro bem sucedido em Portugal. Comovi-me. Ah, as criancinhas a aprender tudo apartir do computador, sem manuais, sem quadro, sem giz. Projectores, apresentações em power point, trabalhos de casa em formato unicode, pen's com os apontamentos tirados durante a aula, a poesia camoniana do código binário. Que visão magnífica. Consigo imaginar já um destes alunos, crescido, sem fazer ideia do que é um livro.
Após a sincera comoção, o derretimento deste iceberg glaciar a que alguns românticos chamam coração, fez-se luz nesta cabeça: Portugal é um país de progresso. Tão preocupado com o sucesso da escola do futuro, vota à desgraça a escola do presente. Ah, doce país.
O medo da exclusão.

A minha tia diz que as novas gerações (onde eu me incluo) são muito corajosas. Porque as novas gerações são obrigadas a adaptar-se ao progresso, que é cada vez mais assustadoramente súbito e descontrolado. Tudo muda brusca e inconsequentemente. Ah, a modernidade, a puta da modernidade. Nós, as novas gerações, vamos ancorando o barquinho aqui e ali, a ancora já nem desce. Quê? Nunca desceu. De há vinte anos para cá (creio) que a sociedade «pula e avança» de forma aterradora, para lado nenhum. E as novas gerações que crescem em plena revolução virtual (chamemos-lhe assim) andam como que à deriva. Não há outra palavra: andamos à deriva. Mas a deriva já é antiga. Quando começámos a substituir os nossos valores intrínsecos por outros. Substituir? Digo: perder. Não os substituímos por outros melhores. Nem por piores. Apenas perdemos os que nos eram ensinados como certos. Começámos a recusá-los. Porquê, não sei. Já houve quem tentasse adiantar razões. Nenhuma delas me pareceu suficientemente forte, e as que eram fortes, eram pouco plausíveis. Há livros sobre o assunto, mas quase todos enfadonhos. Porque, quer queiramos quer não, deriva é quase exclusivamente moral. O resto da quota é a natural num regime democrático.
Vou abrandar. Começo a soar como o abominável César das Neves: é gravíssimo. E a «crise de valores» do Ocidente é um assunto mais do que discutido, mastigado. Sim, porque é do Ocidente que falo. É aqui que vivo. O resto não me diz respeito. Porque ainda prefiro o desnorte democrático ao determinismo totalitário.
Que as novas gerações não saibam o que abraçar, que se sintam perdidas, que se tenham de adaptar a realidades novas a cada cinco anos, ninguém tem dúvidas. Já em relação à coragem sou reticente. As pessoas são aquilo que têm de ser, o reagem conforme o que lhes é exigido, muda o contexto, muda a pessoa. Há sempre quem goste da mudança, e quem se sinta desconfortável com ela (como eu). Quem a acolha de braços abertos e quem a olhe com desconfiança (como eu). Há sempre progressistas e conservadores. Egas e velhos do Restelo. Porque somos iguais agora ao que éramos no século XVI depois de Cristo e no Século XVI antes de Cristo. O que mudou foi o contexto. Por isso, a coragem das novas gerações é apenas instinto de sobrevivência, medo da exclusão. Só isso.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

A revista.

Saiu o novo Blitz. Ou devo dizer «a nova Blitz»? Sim, agora é uma revista. Uma cópia barata e sem charme da americana Rolling Stone. Um produto normalizado, chato, sem interesse. Ainda não li artigo nenhum, a revista continua sobre a cama à espera que eu tenha coragem. Por isso, não falo do conteúdo (o grupo de jornalistas é o mesmo, sensivelmente, pelo que não deve ter mudado grande coisa). Mas a estética é muito importante: e a estética da revista é um desastre.
É kitsch. É desagradavelmente moderninha. Kinda bright and shiny a mais. Muito «Miami Beach Rock Star». Aquele glamour bacoco e rude. Ainda para mais com o insuportável Jagger na capa. Há poucas revistas com um ar sério e sóbrio: sendo sobre música, a única forma de ser sóbrio é como jornal. Resumindo: a revista dá asco.
Quero de volta o velho Blitz em papel de jornal mal amanhado. Tenho a certeza que muita gente quer. E o Manuel Falcão deve estar muito, muito, chateado.

Quarta-feira, Junho 21, 2006

O trapo.

Encontro na rua uma amiga de longa data (não necessariamente amiga, nem necessariamente de longa data, mas estilisticamente fica mais aprazível, não?, do que dizer, encontrei uma conhecida que não via há algum tempo. Quer dizer, não fica assim tão mal. Mas aí teria de especificar há quanto tempo não a via. Era um bocado chato, porque, na verdade, não me lembro. Mas voltemos ao texto). Encontro na rua uma conhecida que não via há algum tempo. I mean: uma amiga de longa data. Conversamos um pouco sobre trivialidades. Não ligo. Estou concentrado no decote. Sempre lhe apreciei as maminhas. Tinha saudades de as ver. «Surpresa agradável, ter-vos encontrado aqui», diria eu, mas ela estava a falar de como ia a vida dela. Culpa minha, fui eu que perguntei. Devia ter falado directamente às maminhas.
Mortas as saudades das glândulas mamárias simpáticas, e esgotadas as palavras de ocasião, começamos a preparar os pés para seguir caminho, cada um para seu lado. Antes disso, ela pergunta-me o que levo no saco. «Livros», respondo eu. Não insiste em saber quais. Não faço questão de lhe dizer. As normas da boa educação e da convivência social levam-me a perguntar também o que leva ela no saco. E é então que ela, orgulhosa, tira do saco um farrapo. Diz-me: «É uma saia que comprei agora». Mas aquilo não era uma saia. Era um pedaço de pano, feito de remendos, uma rodilha, um trapo amarrotado e enxertado com pedaços de outros tecidos, de várias cores anarquicamente distribuídas, nenhuma delas condizente com as outras. Algo que um mendigo faria para, sei lá, se abrigar do frio. Horrorizo-me. Ela ainda pergunta: «gostas?». Porquê santo Deus, porque me fazem estas perguntas? Há gente que gosta de ser humilhada. Preparo-me para uma resposta cínica, mas por respeito às maminhas, digo que sim, que é gira, que lhe deve ficar bem.
Por fim, despedimo-nos. Eu respiro fundo. Pelo caminho vou a pensar que se a tivesse encontrado com aquela saia (?) vestida, talvez não a reconhecesse. Talvez lhe desse uma esmola. Ou talvez não: comprar-lhe-ia um bolo e um sumo, porque se lhe desse dinheiro provavelmente seria para comprar droga.
Diário, 21 de Junho, 2006:

Ensaiei a fuga. Dia de jogo, Portugal-México, Mundial de futebol, euforia, gritos, bandeiras, festa, barbárie, flagelo, genocídio. Eufemisticamente falando, claro. Sem recursos de estilo é penoso falar no que tem sucedido estes dias por causa do mundial, no terror hitleriano (ou darwiniano? Ou kafkiano?) das ocorrências.
Ensaiei a fuga. Enfiar-me a na Fnac a gastar os cheques-oferta dos anos e mais uns cobres. A minha mãe tentou-me avisar: «Filho, na Fnac a euforia será igual, toda a gente quer ver o jogo». Eu não liguei. Tinha esperança. Sou um sonhador, believe it or not. E contava que, em algum lugar de Portugal, houvesse alguém que não usasse cachecóis com as cores horrendas da nossa bandeira. Porém, uma inquietação surgia dentro do meu peito, ao lembrar-me do aviso materno. Ela podia estar certa, e eu podia estar em maus lençóis. Devia ter ficado na cama.
Mas fui. Tão convicto como desconfiado. Tão esperançoso como amedrontado. Mas fui. Pelo caminho, o mesmo de sempre: é dia de trabalho, muita gente para lá e para cá, mas, claro, toda a santa alminha envergava o seu cachecol, ao pescoço, no pulso, à cintura. Havia também a «arte facial»: beberrões com garrafas de litro de cerveja, que entoavam o hino nacional, com a carantonha pintada de verde e vermelho, e no nariz, a bolinha amarela. Glória. Céus, tirem-me deste filme.
Eu seguia (ou tentava seguir) absorto na música que saia dos auriculares, pensando na lista que tinha feito dos livros a comprar, tentando a todo o custo esquecer-me que estava a decorrer o jogo de futebol, que estava em Portugal, que era português. Consegui sobreviver.
Cheguei à Fnac. A minha mãe tinha razão: em frente às televisões uma pequena multidão amontoava-se, exaltava-se, sofria com o jogo. Mas eu ainda tinha esperança, a secção dos livros havia de justificar a viagem. E justificou.
Lá em baixo, principalmente nas secções mais escondidas (literatura anglo-saxónica, politica, filosofia e história), podia finalmente respirar. Não havia futebol, nem cachecóis, nem bandeiras, nem festejos, nem protestos. Com alegria vi que a minha mãe estava errada. E disse de mim para mim, num suspiro: há quem leia livros.
Nos sofás umas quantas pessoas que, decerto, nunca tiveram sexo (e, pelo aspecto, provavelmente nunca hão-de ter), folheavam livros. Os famosos browsers intelectuais. Outros passeavam pelas estantes. Eu passeava triunfante: ali o terror não me havia de encontrar. E não encontrou.
Fiz-me aos livros. Procurei. Folheei. Escolhi. Perguntei. Hesitei. Vagueei. Observei. Não encontrei nenhum livro que constasse da lista (sou um rapaz de gostos difíceis, de paladar apurado, de palato sensível, não me contento com best-sellers ou novidades, nem com literatura óbvia. Sou um chato, no fundo, mas não digam a ninguém). Como disse, não havia nada do que estava na lista, mas valeu a pena. Valeu a pena sobretudo porque descobri uma fatia, mínima, da população obviamente chata como eu. Valeu a pena porque descobri que não sou o único a pensar em suicídio quando vejo o Luís Figo. Valeu a pena porque, de súbito, saí do «país do futebol» e entrei no «país das pessoas com aspecto pouco recomendável mas que, ao menos, lêem livros».
E, claro, os livros. Esvaziei os bolsos mas preenchi a alma. O consumo desenfreado acalma, dizem alguns (algumas?) shopaholics. Eu não diria melhor.

Terça-feira, Junho 20, 2006

A ler: Learning From Our Fatal Mistakes, By Art Buchwald.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

A preguiça.

Para quem não sabe, sou um preguiçoso. Para quem já sabe, saltemos essa informação. Há dias que não faço nada de útil. E devo dizer-vos: é tão bom ser inútil. Desprezo a noção romana do funcionalismo aplicado à arte: a arte não tem função, e é essa inutilidade que a torna tão apetitosa. Qual é a utilidade de Bach, ou de Dostoiévsky, ou de Picasso? E estes são os conhecidos pelas massas, por muita gente - e logo, com mais «utilidade», mais impacto - mesmo que só de nome; mesmo que uma só obra. Se falarmos em Schoenberg, Tolstoi ou Matisse, será muito menor a fatia da população que conhece estes nomes, menor ainda a que conhece a obra. E há contingentes ainda mais desconhecidos, mais marginais, mais inúteis. Estes artistas, terão, porventura, causado arrebatamentos nuns quantos românticos, mas é só. E não há mal nenhum nisso. Pelo contrário: a inutilidade da arte é divina. A arte é o que o mundo tem de melhor, por não ter de ter função. Tudo é produzido com um intuito final, com uma função determinada. Para a arte, ainda não se encontrou função. Tudo é maravilhosamente anárquico e casual, não há determinismos. E ainda bem.
Mas voltemos à preguiça. Estes últimos dias têm sido da mais condenável modorra. Não faço nada, e orgulho-me de não fazer nada. Isto é: não contribuo para o PIB (mas isso não é novidade). Nem escrever. Há dias que não escrevo nada, nem me apetece. Porquê? Se posso ler, para quê escrever? Dir-me-ão que são tarefas muito distintas. Concordo. Mas ler dá-me mais prazer, infinitamente mais prazer. Por isso, arrasto-me aqui por casa. De livros na mão. Deitado no sofá. Engolido pelo sofá. Quase parte do sofá. Lendo ou vendo DVDs. E, claro, a comer, a enfardar, a esgotar alarvemente o stock de comida no frigorífico, na despensa, onde for. Tudo o que há de comestível nesta casa há-de ser devorado pela minha insaciável gula. Sou um duplo pecador, nestes dias. Um preguiçoso guloso. É esta a ordem. Primeiro sou preguiçoso, e depois sou guloso. Os outros pecados dispenso: não fiz muita coisa de que me orgulhasse, devo dizer, e a arrogância dá muito trabalho, bem como a inveja e a ira; sou generoso e nada ganancioso; se me deixassem entregava-me a uma vida de luxúria, mas não deixam. Por isso, fico-me pela gula e pela preguiça.
E vivo nisto. Dia após dia após dia. Saio de vez em quando, mas as pessoas estão todas atoladas em coisas úteis para fazer: estudar para os exames, na maioria - a faixa etária é uma coisa lixada. Falso alarme: o exame tem de ser fácil por variadíssimas razões que já estudei e que não me apetece agora explicar. Além do que é só trinta por cento da nota. Piece of cake. Por mim, continuo aqui a enfardar e a cultivar-me. Enquanto os outros se afundam em química ou geografia, eu posso afundar-me em modorra e comida, em literatura e cinema. Quem, no seu perfeito juízo, havia de preferir a química ou a geografia?
Devo dizer-vos: a principal característica de um verdadeiro preguiçoso é tentar justificar ideologicamente a sua preguiça. Sempre que alguém apelar à racionalidade, apresentar argumentos, defender-se com o bom senso, ensaiar discursos, esbater justificações, para vos falar da sua preguiça, saibam que estão perante um verdadeiro preguiçoso. Ou sempre que alguém escrever um texto sobre isso. Como este.
Am I too old or what?

«A young person whos conservative has no heart; an old person whos liberal has no brain. Have you heard this saying? There are two ways it can be interpreted: as a statement of fact (about peoples actual political trajectory) and as a judgment of value (about which trajectory is good). I read it as both. It says that as a matter of (natural) fact, there is a progression from liberalism to conservatism; and it adds (quickly) that this is good. The saying is both descriptive and prescriptive, like S is lazy and T is a coward. It commends young liberals and old conservatives. It condemns young conservatives and old liberals.»

Keith Burgess-Jackson. My Journey to Conservatism.

Domingo, Junho 18, 2006

A ler: Why I left the Left, by Seth Swirsky.
A ler: a educação do Tiago.

Sábado, Junho 17, 2006

Quando vejo a série The O.C. acredito, nesses vinte ou trinta minutos, que as utopias são aplicáveis, que pode haver um mundo ideal. Sigam o meu raciocínio: se até a carinha bonita da Mischa Barton lê Flaubert e Kerouak, meu Deus, what kind of world would it be? Como dizia o foleirote Mercury: this could be heaven for everyone.
Diário, 17 de Junho, 2006:

Há muito que ansiava por um dia destes. Os aniversários não trazem só angústia. Trazem coisas boas também. Entre elas, os presentes. E há sempre um dia, uma semana ou coisa que o valha após o aniversário, em que me proponho a usufruir, sem perturbações, como se não houvesse mundo exterior, dos presentes que me deram. E como é deliciosa a sensação de preguiça, de acordar tarde, de não fazer nada, de não ter de fazer nada.
Acordei ao meio-dia, mais coisa menos coisa. Saí para comprar o pão, e abstive-me de comprar o jornal. Não precisava dele para nada. Tinha diversão garantida para a tarde toda. Tomei o pequeno-almoço a ver os DVD do OC, a primeira série. Fiquei pelo sofá a ver a Mischa Barton e companhia durante duas horas. Depois, fiz-me ao meu amigo de longa data Pedro Mexia. Ao seu livro de crónicas, mais precisamente. Já tinha lido a maior parte delas, but who cares?, tinha saudades. Reencontrei-o e reencontrei-me. Reencontrei aquelas crónicas semanais, e reencontrei também as semanas que lhes antecederam e sucederam. E há muito tempo que não tinha uma tarde como esta: solitária e feliz.
A solidão auto-imposta é um prazer. O Pedro Mexia e a Mischa Barton são companhia do melhor. Sim, eu sei, OC e crónicas, coisas de adolescente, prazeres culpados. Para fazer boa figura devia dizer que li Joyce e vi o Brideshead Revisited em versão televisiva. Ou Fellini - que as séries de televisão são sempre pífias quando comparadas com os grandes cineastas. The hell with it. Toda a gente sabe ou devia saber da minha obsessão pela menina Mischa Barton, e a minha predilecção pelas desavenças adolescentes de Newport Beach, tal como a minha admiração pelo menino Mexia, pelo poeta e pelo cronista. São coisas essenciais sobre mim. Quem não sabe isto, não me conhece.
Por isso, agradeço esta tarde a quatro pessoas. À mãe e à namorada, pelos presentes. Ao Pedro e à Mischa, pela companhia. Enquanto os tiver aos quatro, não preciso de mais ninguém.

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Patriotismo.

O patriotismo não é excepção - conforme a nação, muda a pertinência, o significado, a legitimidade, etc. Here's my thought: ser patriota em Portugal é completamente inaceitável. Ao contrário do que possam pensar, eu gosto de viver em Portugal. Gosto. Mas é só porque nasci aqui, estou habituado, e não gosto muito de mudanças - mesmo que sejam para melhor. Por isso, vou ficando por aqui. Os sonhos de ir para um país civilizado desvanecem-se ao pensar que vou ficar longe dos meus sítios e das minhas pessoas, e mais ainda quando penso na trabalheira que vai dar mudar-me daqui para lá. Mas divago. O que queria dizer é que gosto de viver em Portugal, tal como gostaria de viver na Dinamarca se tivesse nascido na Dinamarca, ou como gostaria de viver na Argentina se tivesse nascido na Argentina. Mas isso não quer dizer que ache esta choldra aceitável ou mesmo agradável para viver. Primeiro problema: os portugueses. Cospem para o chão, são arrivistas, mal-educados, mal-humorados, barulhentos. Segundo problema: Portugal é Portugal, quase nada está bem ou esteve bem, e é difícil pensar que algum dia há-de estar. Portugal é reles. Os portugueses são reles. Temos especificidades, assim dizem lá em Bruxelas. Mas é porque são bem-educados, e não gostam de nos ofender. São as nossas especificidades que nos sustentam. Bem ditas malformações congénitas.
O Dom Carlos, creio que fosse o Dom Carlos, quando avistava a costa portuguesa, vindo de uma jornada em Inglaterra, dizia: «de volta à parvónia». Depois foi morto. Os portugueses nunca deram valor, pior: sempre odiaram, quem tinha razão, quem dizia a verdade, quem tinha um profundo desprezo por Portugal. They still do.
O Eça parodiava tudo. Porque tudo merecia ser parodiado. A nossa alta-sociedade era a mais irrisória de toda a Europa, porque era campónia, pouco sofisticada, portuguesa demais. E, na época, a alta-sociedade era, de facto, a elite de um país. Hoje, as nossas elites não são, também, muito vistosas. Os intelectuais são poucos. Fogem daqui. Ou vivem com vontade de fugir, mas sem conseguir, porque gostam, apesar de tudo, da «choldra». Como eu.
O mal dos portugueses é acharem que Portugal é um país como deve de ser. Não é. Que raio de ilusão é essa? Temos a produtividade de um país da África central, e temos as pretensões de uma Alemanha. Mais: estamos convencidos que estamos ao nível da Alemanha. Pior: que estamos ao nível do Reino Unido. Pobre povo português. Pergunto-me se algum dia acordará para a realidade. Who knows.
Mais uma vez, fujo ao assunto. Hoje estou irreversivelmente aéreo, peço desculpa. Volto ao assunto dentro de dois segundos.
Ser patriota em Portugal é falta de educação. Portugal pede, sempre pediu, para ser desprezado. Porquê fazer esta desfeita? Desprezemos Portugal com todas as nossas forças. Portugal merece. Ao longo destes séculos de país, não conseguimos um minuto de seriedade, e isso é de louvar. Vá, não sejam forretas, desprezem imensamente este país. País? Perdão, este jardim à beira mar plantado. Vão dizer-me que o passatempo de um português normal é dizer mal de Portugal. É verdade. Mas é tudo fachada. Assim que começa mundial, é ver as bandeiras a aparecer nas janelas, nos carros. E logo a nossa bandeira, que causa arrepios a qualquer pessoa com o mínimo de sentido estético. A nossa bandeira tem a combinação de cores mais ridícula a seguir ao logótipo dos jogos sem fronteiras de 96. (não, eu não me lembro do logótipo dos jogos sem fronteiras de 96, era só uma acentuação no estilo jocoso). I mean: a nossa bandeira é feia. Muito feia. Grotesca. Se fosse a bandeira da monarquia, tudo bem, é bonita, azul e branquinha. Mas esta é inaceitável. Por outro lado, se pensarmos bem, qual o futuro monárquico português? Nenhum, exacto. PPM? Give me a break. Dom Duarte? Não me insultem. O que proponho é isto: aderir à commonwealth. Isso seria de valor. A rainha de Inglaterra é uma ternura. E as nossas relações com as terras de sua majestade sempre foram privilegiadas. E aí já nos podíamos orgulhar de ser portugueses, de Portugal: um país rendido à supremacia britânica. Até podíamos cantar conjuntamente, ao invés dos heróis do mar nobre povo nação valente e etc., cantaríamos, felizes, e civilizados: «Rule, Britannia! Britannia rule the waves. Britons never shall be slaves».

Quinta-feira, Junho 15, 2006

A ler: Luís M. Jorge em crónica depressiva (e, claro, acertada).

Quarta-feira, Junho 14, 2006

A natureza primitiva.

Uma amiga obrigou-me a entrar numa loja de roupa chamada Natura. Bastaram dois minutos para perceber que estava a pisar terrenos lodosos. Desconfiei logo que a Natura patrocinava manifestações ambientalistas, anti-globalização, anti-invasão do Iraque. É que, de facto, a Natura não quer que nós invadamos o Iraque, quer é que o Iraque nos invada a nós. Séculos de civilização, séculos de emancipação feminina, o estabelecimento gradual e árduo dos conceitos estéticos, para, no fim de contas, se inventar uma loja que alicia os jovens a usar túnicas, roupas amarrotadas, no fundo: trapos. A burka será o próximo passo, depois não digam que não vos avisei. Mas, por favor, quem souber, que me diga: qual é o prazer de usar roupa suja? Pior: porquê comprar roupa originalmente suja? Mais: porquê querer parecer sujo? Por mais que tente, nunca hei-de compreender a moda.
Sou contra a guerra do Iraque, porque o Iraque é lá com os iraquianos e ninguém tem nada que ver com isso. Da mesma forma sou contra a invasão do Ocidente pelo Médio Oriente. Não vejo razão para as nossas raparigas deixarem de usar saias e calças e topes e vestidos, para dar lugar a essa coisa indefinida que são as túnicas, as calças largas, e toda uma parelha de trapos inaceitáveis. Porquê ocultar as curvas do corpo? Porquê vestirmo-nos como se não tomássemos banho? Porquê não tomar banho?
Ao que parece, as gerações Natura querem um «regresso às raízes». Deixem-nas regressar. Melhor: levem-nas lá. Para longe daqui. O mais depressa possível.
Se observarem uma manifestação ambientalista ou anti-globalização, hão de reparar duas coisas:
Primeira: ao observar de perto, hão-de sentir o cheiro nauseabundo (aquilo é gente que é contra tomar banho porque a água está-se a acabar, é preciso poupar).
Segunda: não se sabem vestir (porque quem se veste bem são os burgueses, e há pessoas a morrer à fome por causa desses burgueses, e por isso eles vestem-se com trapos anti-burguesia numa loja caríssima e globalizada, a Natura).
Isto, meus amigos, é manipulação. A Natura é um monopólio. Aquele urso à entrada é a única coisa simpática da loja. Lá dentro, um antro de perversão. A Natura está a tentar destruir os nossos valores estéticos, colocando um pano amarrotado e manchado por sobre um corpo feminino potencialmente bonito.
Depois deste episódio, mergulhei numa depressão profunda. A minha amiga comprou uma túnica. Foi a última vez que a vi de mini-saia.
O aniversário (pós).

Sempre que o ano escolar acaba digo «para o ano é que é», como quem diz «este ano não me esforcei, mas para o ano hei-de fazê-lo». Todos os anos. E acredito sem reservas durante o verão inteiro que «para o ano é que vai ser». Mas nunca é. Verdade seja dita: nunca chega a ser. Há sempre algo que se interpõe no caminho da virtude: rabos de saia, depressões, leituras, preguiça. Tudo o que servir de justificação. Tenho «nas veias o veneno do diletantismo».
Mas parece que «para o ano» vai mesmo ter de ser. Creio nunca me ter sido dirigida a mesma frase tantas vezes num mesmo dia. Exercício de imaginação: o familiar chegava, dava-me os parabéns, dava-me o presente, e depois dizia: «dezassete hein? Pró ano équié». Eu dava corda à diplomacia. Senti-me bastante literário. Mas não vem ao caso. Dizem me que para o ano que é que é porque para o ano tenho dezoito, a maturidade, a responsabilidade legal e a responsabilidade real. Acabam-se as criancices justificadas, acabam-se as palavras irresponsáveis, acaba-se o mundo de príncipes e princesas para dar lugar a um mundo onde só existem filhos de primeiros-ministros. Crap.
Como sou conservador vou manter a tradição, e continuar a dizer que para o ano é que é. Até que um dia seja. E hei-de morrer com a sensação de que dessa vez é que foi.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

O aniversário.

«and then one day you'll find
ten years have got behind you».

(Pink Floyd, Time.)


Completo amanhã dezassete anos. Até aos dez foi bom. A partir daí foi de mau a pior. Porquê? Simples: o crescimento traz liberdade, independência, responsabilidade. Mas para que quero eu liberdade se tenho a segurança das saias da mãe, da minha querida mãe que me atura com paciência de Job? Para que quero eu independência se estou bem por aqui, debaixo das capas e escudos maternos, protegido das intempéries do mundo? E da responsabilidade nem se fala: nunca serei um adulto responsável porque hei-de olhar sempre primeiro para o umbigo. O meu.
Odeio crescer, ou, pelo menos, crescer para o mundo. Sei que sou novo ainda, mas os anos passam cada vez mais rápido e eu não dou por eles nem eles dão por mim. A vida passa, eternamente passa, e eu aqui a vê-la passar. Os meus dias esvaem-se como areia por entre os dedos, e eu encaro tudo com o temperamento agridoce de uma comédia romântica realizada por, let me see, Paul Thomas Anderson. Sei que é assim com toda a gente, mas assusta-me a mim também. Sou humano. E sim, somos todos parecidos.
Além disso sou um diletante por natureza. Vejo em mim um perfeito Carlos da Maia: educação encaminhada, prenúncio de um futuro brilhante, talhado para uma posição de destaque, e, no fim de contas, sei que hei-de ser sempre mais um. Falta qualquer coisa. Sou sempre esmagado pelo absurdo e pelo acaso. E todas as esperanças messiânicas da família em mim caem por terra. Não vou a lado nenhum, porque sou um diletante, sou derrotado pela vida, resigno-me, baixo os braços, desisto. Ah, mas não me liguem, é a depressão do aniversário. Todos os anos acontece por esta altura.
Outra coisa: não entendo o porquê de me darem os parabéns, não fiz nada demais, nascer é fácil, e nem sequer é mérito meu. Dêem os parabéns à mãe por ser capaz de suportar e de amar este pequeno monstro que sou eu. Além disso sempre achei que seria mais apropriado no meu aniversário que, em vez de festejos, se praticasse um luto profundo. Afinal, eu nasci.

***
PS: obrigado pelo aviso, menina Lilith.

Sábado, Junho 10, 2006

A Utopia.

Eu não entendo os utópicos. Ou por outra, entendo: é coisa de crianças. Mas tenho sempre vontade de chegar ao pé deles e dizer: "grow up and read a book". O mundo ideal não é possível - não com seres humanos. E para compreender isso basta ler Dostoiévsky ou Shakespeare. Nem isso: basta olhar em volta. Basta ver como somos tão maravilhosa e irrevogavelmente imperfeitos.
Explicação:

Nasci num mês complicado: entre marchas populares, campeonatos do mundo e da Europa de futebol, e um calor bastas vezes insuportável. Não prenunciava nada de bom, é certo, mas tornei-me uma pessoa civilizada. O que é de louvar: marchas populares, calor em demasia e futebol são as três coisas que mais atentam contra a civilização.
Pesadelo.

Agora que começou o Mundial, penso seriamente em emigrar. Por um mês só. Para a lua. Porque é o único sítio do mundo onde é impossível que alguém esteja a falar de futebol. Não há país nenhum do mundo, esteja ou não esteja no Mundial, que não preste atenção ao evento. Eu queria fugir, mas dentro do mundo é impossível. Então, que seja para a lua. Fico lá de cima, a olhar para o mundo, bem de longe. Que até parece bonito, visto bem de longe. Porque visto de perto, parece a merda que é: um mundo onde não há civilização possível. Pelo menos durante um mês. Este mês. Depois, os países civilizados voltam a ser civilizados, e os países pouco civilizados tornam-se pouco civilizados de novo. Mas durante o Mundial todo o mundo é uma anarquia feliz e ignorante, exaltada, aos gritos. Que nojo.

No mundo inteiro, só há um sítio onde o futebol não entra: no meu quarto. Espero, sinceramente, que Angola ganhe amanhã e que Portugal seja eliminado o mais rápido possível para que se acabe já a palhaçada, ou pelo menos parte da palhaçada, nacionalista, bacoca, patriótica, ridícula, campónia e mal-cheirosa do futebol e do Mundial. Até as mulheres, as mulheres, santo Deus, aquelas que se chateiam com os maridos por verem tanto futebol, até essas santas se tornam umas putas quando se fala da selecção nacional. Eles querem ver, elas interessam-se, elas gritam, elas torcem. Oh god, why?

Um último apelo: se há por aí vivalma que tenha desprezo semelhante ao meu pelo futebol, e se a propaganda do Mundial lhe causa tanta urticária como a mim, por favor, contacte-me. Eu preciso de saber que não estou sozinho.
Signos.

Não acredito em signos. Gozo até com as pessoas que lêem horóscopos e se interessam por isso e são "estudiosas" do assunto. Gozo e não é pouco. Humilho. Acho ridículos os signos e a paranóia que se cria em volta deles. Não há nada de sério na leitura dos astros, só doenças de foro psicológico e demasiado tempo livre.
O problema é este: quando descubro que certa pessoa que admiro é do signo Gémeos, como eu, rejubilo, faço milhares de alusões mentais entre as "parecenças", entre as "preferências", entre as "obsessões", eu sei lá. Digo: "ah, agora entendo o porquê de ele dizer isto, ou de achar aquilo, ou de ser assim". Depois paro e reconheço que preciso de ajuda. Onde foi que eu deixei o meu cérebro? - pergunto, desesperado.
Há cinco minutos descobri que o João Pereira Coutinho era do signo gémeos, como eu. Primeiro, uma leve euforia (todas as minhas euforias são leves), um sorriso aparvalhado e um "i knew it" bastante foleiro. Depois, um suave rubor assomou às maçãs do rosto, um pedido de desculpas sincero a mim mesmo, e um correr das cortinas, para evitar mais embaraços. Eu, naquele momento, fui a representação dessa massa de horóscopo-dependentes que tanto abomino. Tudo bem, admirar o João Pereira Coutinho não é o mesmo que admirar a Vera Fischer ou qualquer outro actor brasileiro de segunda. And yet: eu pertenci, por minutos, a essa escumalha das revistinhas A5, com previsões sobre o amor, a saúde, e o estado financeiro, lido por empregadas de limpeza (maioritariamente), os parentes pobres, kitsch e jornalísticos (?) dos livros de auto-ajuda. Nunca me hei de perdoar a mim mesmo. A menos que seja uma doença. Nesse caso consulto um especialista. E rezo para que tenha cura.

Sexta-feira, Junho 09, 2006

A ler: Heaven Can Wait, by Art Buchwald.

Bem sei que o texto já tem uns meses, mas li-o tantas vezes, e com tanta voracidade e urgência, que decidi partilhar. Ah, o meu pródigo altruismo...
A feliz adolescência.

Embora eu goste de pensar que a adolescência se caracteriza apenas pela ausência de cérebro, não é verdade. Não. É chocante, eu sei. Somos acéfalos com três meses de férias. E essa é a parte mais importante: os três meses de férias. Os meus começaram hoje.
Agora posso passar o dia a fazer o que quer que seja sem sentir remorsos por não estar a fazer o que devia estar a fazer porque não há, de facto, nada para fazer. Se as obrigações eram poucas, agora são nenhumas.
Tenho tempo para tudo, o que, no meu léxico, quer dizer: tenho tempo para nada.
Posso finalmente votar-me ao feliz eremitismo, à deliciosa reclusão. Ou quase.
De vez em quando, lá me dizem: «ah Rui, você devia aproveitar a vida; o tempo voa rapaz, quando der por si, a juventude passou [god, i hope so]; na sua idade, você precisa de se divertir». A estas pessoas, normalmente (or should i say: naturalmente?), respondo de forma hipócrita, sou o mais asqueroso e demagógico possível, ou simplesmente encolho os ombros resignado à miséria humana. Mas devia dizer-lhes que lessem um livro.
Outro exemplo: a minha mãe achava que eu me ia meter em Rock in Rios e afins. Descobri, nesse momento, que vivia com uma estranha em casa. O que me faz gostar mais dela: não me conhece e, ainda assim, atura-me e ama-me e cuida de mim.
Isto tudo para dizer que, nestes próximos três meses, vou viver menos. Isto é: ler mais. Tenho a mesa-de-cabeceira atolada em livros. E tempo, muito tempo para usufruir de tanta literatura. Sounds like fun? Tenham inveja.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

Os incêndios.

Os incêndios que deflagram (os jornalistas usam sempre esta palavra) no país inteiro são já um déjà vu. O espetáculo é bonito, não nego, mas a repetição anual começa a ser cansativa. O ano passado tentou-se coisa nova: a seca e tal. Mas as secas não são vistosas. Já o contrário é capaz de resultar na perfeição: água em demasia will do it. Umas cheias são sempre de encher o olho, e pronto, entretém-se os cidadãos enquanto o país foi de férias.
Por um mundo melhor.

Tenho uma ideia. Dir-me-ão que não é original, que já um utópico afegão ou saudita teve a mesma ideia. Tough luck. Não a divulgou em público (ai o medo dos média, ai o medo do ocidente). Divulgo eu. E a ideia é esta: uma bomba - não, várias bombas, até que o trabalho esteja terminado - sobre os estádios de futebol alemães durante os jogos de maior afluência do mundial. Consigo pensar numa quantidade de gente indesejável que ia desta para melhor (sim, espero que para melhor, pelo menos assim não há a tentação de voltar). E mesmo aqueles que não conheço, que foram apenas assistir ao "espectáculo". Se lá estão, são, pelo menos, cúmplices da selvajaria que é o mundial de futebol.
Caro leitor, confesso-lhe, não é má vontade minha, nem ódio particular aos jogadores, treinadores, amantes, de futebol. Mas, por favor, compreenda o meu lado: já não posso ouvir falar de futebol. Não consigo mais.
Por todo o lado alusões ao mundial, tudo alude ao futebol - a essa festa sueva. Enquanto isto durar não há paz possível. E a Europa é um espaço de paz. Pensem no coitado do Jean Monet, pensem no que batalhou para transformar a Europa no que é hoje: nesse espaço de paz. E o futebol é barbárie, nada menos que isso: barbárie primitiva e pré-histórica. O futebol é o contrário de civilização. Pelo amor de Deus, venham daí essas bombas.
Quem se quiser juntar a esta causa nobre tem ali o e-mail ali ao lado. Dava jeito ter um site também. Estou a contar com todos. Por um mundo melhor.
A minha colega (o regresso).

A minha colega voltou a atacar. Com as mesmas armas. Mas num campo de batalha muito mais propício à carnificina. Traduzindo: almoçou à minha frente. Pensei que havia acabado o suplício, mas era pura ilusão, caro leitor. Durante uma semana, ou coisa que o valha, ela trouxe camisolas normais, sem grandes decotes, não usou aqueles soutiens que fazem os seios espreitar para fora, nem sequer se sentou ao meu lado, ou insistiu em fazer trabalhos comigo. Por uns dias, o mundo pareceu-me puro. Mas eis que chega este dia: regressam os soutiens que apertam e empurram, e os decotes que insinuam as maminhas. Regressam os suores frios, as dores de cabeça, os pensamentos impuros, as náuseas, as tonturas, o desnorte, a culpa, sempre a culpa. Os meus olhos voltaram a fixar um ponto. Minto. Dois pontos. E, neste dia, foi só o que viram.
Como disse, ela almoçou comigo. Dirigimo-nos a certo estabelecimento de comida rápida e pedimos a refeição. Em inglês, muito mais elegante: we order in. Até aí, não tinha reparado em nada. Fazia parte da minha precaução: não olhar muito, porque, de facto, podia ser que elas espreitassem para mim quando eu espreitasse para elas. Mas assim que nos sentámos, ela amparou o decote com os braços e cruzou-os sobre a mesa; olharam para mim, ela e as maminhas, sorriram, ela e as maminhas, e depois ela disse, de uma forma que julguei pornográfica: bom apetite. Dois rapazinhos do sétimo ano que almoçavam na mesa ao lado perderam a virgindade.
Eu perdi o controlo. As pernas começaram a tremer. E, demasiado tempo depois, lá disse: obrigado, igualmente. Senti-me também a oferecer mais do que podia e devia. Disse-lhe que ia só à casa de banho e já voltava. Lavei a cara, olhei o pecador no espelho: não era eu, não podia ser eu. A culpa era do demónio. Foi ele que a enviou. Foi ele, foi ele, só pode ter sido ele. Deus nunca insistiria de novo numa provação: eu resisti, ele largou-me da mão. Esta reincidência só podia ser obra do mafarrico. Teve o seu dia, seis do seis do seis, devem ter-lhe cantado os parabéns, ele deve ter trincado as velas e pedido um desejo. E o desejo deve ter sido este: atormentar de novo o Rui Miguel. E pronto, ali estava eu, a sofrer os desígnios demoníacos, sem ter feito nenhum mal ao mundo.
Voltei para o meu lugar, tentando manter-me mais calmo. Comi quase em silêncio, anuindo a quase tudo o que ela dizia, sem prestar muita atenção. Os rapazinhos do sétimo ano estavam ainda atónitos. Olhavam para ela como para o demónio (e com razão, caros amigos) e para mim como o herói que resistira à provação. Eu resisti, é certo. Mas perdi a batalha. Descontrolei-me. Quando? Eu conto.
Acabámos de almoçar e fomos buscar café (que, by the way, não sabe tão bem se formos buscar, sabe muito melhor se no-lo trouxerem). Sentámo-nos a beber o nosso café (nosso, isto é, eu o meu, ela o dela - é preciso distinguir). E é então que ela, após um golo delicado, passa as mãos pelo pescoço, com cara de sofrimento orgásmico, e num gemido que eu descreveria como "Maria Sharopova após jogada em esforço mas murmurando", disse que havia perdido o seu colar. Pediu-me para procurar. Olhei para debaixo da mesa e fui até lá fora, ver se havia caído. E lá estava, o colar. Com uma cruz. Perguntei-lhe se era este. Ela anuiu. Depois pediu-me para pô-lo. E as pernas começaram a falhar, de novo. Pus. Como um homem, resisti. Ao odor, ao cabelo, ao odor do cabelo, ao pescoço, ao odor do pescoço, eu sei lá. Sei que se for para a guerra serei um herói. Quem sobrevive a isto, sobrevive a tudo. O colar ficou posto. Ela ajeitou-o de uma forma perversa: a cruz a entrar pelo decote. O pecado e a redenção, ali, no mesmo sítio - que bela analogia da vida. Mas eu queria lá saber de filosofia, estava em queda livre nesse abismo de maminhas e decotes e pensamentos pecaminosos. Naquela altura não soube o que era ser cristão.
Quando ela me perguntou se ficava bem, com um sorriso pérfido, eu entendi: o diabo não tinha culpa nenhuma (peço desculpa, profana besta - salvo seja). Ela gostava do jogo, ela gostava de gozar comigo, ela provocava-me de propósito. Saí dali perturbado. Na aula seguinte, sentei-me no extremo oposto da sala, eu aqui ela lá, apartados, com muita gente pelo meio, a impossibilitar-me a vista panorâmica sobre aqueles três seres diabólicos: ela e as duas maminhas. Tentei concentrar-me no que a professora dizia. Impossível. Tentei concentrar-me no livro que tinha dentro da mochila. Em vão.
Tenho medo dos meus sonhos esta noite.

Quarta-feira, Junho 07, 2006

Posso falar em Deus sem querer, mas nunca hei-de falar em Deus sem crer.
A desumanização.

Há uns tempos (quando somos adolescentes nunca podemos dizer "há uns anos", porque será mentira) tomei uma decisão importante na minha vida (se bem que quando somos adolescentes todas as decisões são importantes, mesmo que venham a ser contrariadas meses depois, ou mesmo dias depois, o que não é o caso): decidi reduzir ao máximo a minha utilização das máquinas que substituam tarefas humanas. Exemplos: máquinas de tabaco, de bilhetes, de café, multibancos, e por aí adiante. Porque acho a desumanização das coisas o sinal claro de que devemos travar a todo o progresso, ou pelo menos "este progresso". Temo que, daqui a uns anos, deixe de haver cafés, bilheteiras, livrarias, quiosques, mercearias, tabacarias, papelarias. Sou distributivista e conservador, com orgulho e com carácter de urgência. No seu último livro, George Steiner explica que a Europa é feita de cafés, que toda a cultura e desenvolvimento, durante séculos, surgiu nesses espaços. Pelo que, uma vez findos, veremos a Europa ruir. E com a Europa, o mundo inteiro.
Faço um aviso aos progressistas: quando o mundo civilizado se decidir a tornar tudo automático, tudo robotizado, informatizado, mudo-me para um país não-civilizado, onde ainda exista humanidade. O progresso insinua-se, aos poucos, e ninguém dá por nada, e ninguém se levanta e protesta, todos vêem a mudança como uma coisa boa, sem questionar. Mais: até se aceita com condescendência moderninha - cambada de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos, já dizia o José Mário Branco e muito bem. Primeiro, tiraram-nos os senhores que punham a gasolina. Agora é o condutor que tem de ir abastecer - ridículo. Depois, o tabaco deixou de se vender em tabacarias para ser vendido em máquinas automáticas. Depois vieram os restaurantes buffet e self-service. Os multibancos. Começaram a encher os passeios com parquímetros, tirando o trabalho aos arrumadores heroinómanos tão simpáticos como magros e malcheirosos. Finalmente, as compras pela Internet. Nunca, mas nunca, mas nunca mesmo, repito: nunca, vou comprar nada pela Internet. Muito menos livros. A Amazon que se foda. Um livro não é só o seu conteúdo. É tudo o que o envolve, tudo e mais alguma coisa. Não prescindo de pedir informações aos empregados da livraria, não prescindo de procurar eu mesmo, de passar as mãos pelas estantes, de reparar nos títulos, nas lombadas, de mexer e remexer, e só compro um livro que tenha já devidamente manuseado. A informatização das coisas é uma negação de tudo o que o homem construiu: as civilizações foram erigidas a partir do contacto humano, e não do isolamento. Por isso apelo e luto tanto contra este constante progresso em busca da perfeição de funcionamento e da própria humanidade: porque o que é bom em nós é o caos e a imperfeição, é isso que nos torna interessantes, é isso que nos torna humanos, e eu não quero nada menos que a humanidade.
O contacto com pessoas é sempre preferível ao contacto com máquinas. Sempre é um sorriso que se vê, uma palavra que se ouve, uma estória que se conta, uma anedota que se aprende, eu sei lá. O João Pereira Coutinho diz que o seu barbeiro se chamava Eugénio de Andrade e era poeta. Eu já conheci arrumadores aforistas, empregados de mesa filósofos, e mais uns quantos notáveis no ramo errado. Ou, exactamente, no ramo certo. Porque nós precisamos dessas pessoas. Que prazer terá jantar fora se não houver um empregado sorridente a servir-nos o vinho? Que prazer terá tomar o pequeno-almoço na pastelaria da esquina se não houver uma rapariga que nos sorria e nos dê os bons dias e nos deseje felicidades e que Deus nos acompanhe? Que prazer haverá em comprar o jornal se o homem da papelaria não comentar as notícias connosco? Nenhum. Saímos de casa porque queremos ter contacto com as pessoas. Na verdade, quase tudo o que encontramos na rua podemos encontrar em casa, normalmente mais barato. Mas o prazer paga-se, claro. E o prazer é ter alguém a servir-nos, a atender-nos, a dar-nos atenção. Quando eu era pequeno - dez, onze anos - e andava na rua sozinho, pedia informações que não precisava às pessoas que passavam por mim, só para ter esse prazer de ter contacto com as pessoas. Fiz isso durante muito tempo. Depois entrei na adolescência e muni-me de desprezo pela humanidade. Passou-me. A humanidade é tudo o que temos, e há que estimá-la. Desprezo algumas pessoas. Em particular. A humanidade amo com todas as minhas forças: amo a bondade e a perversidade, amo as nossas imperfeições, os nossos erros, porque sou humano.
Há uns dias entrei num supermercado e vi que haviam instalado máquinas para que cada pessoa pudesse calcular o valor da sua conta, e pagar automaticamente, sem necessidade de intermediário. Que ridículo. Mas mais ridículo foi ver que havia gente a aderir a tal absurdo, com naturalidade e com gosto. "É mais prático", diziam. Fiquei horrorizado. Já acho ridículo termos de procurar nas prateleiras dos gigantes supermercados o que precisamos: só devia haver pequenos espaços onde os empregados nos fornecem o que precisássemos e nos aconselhassem sobre o que têm de melhor ou de pior. Agora isto, é o pior pesadelo - o auge da barbárie progressista. Salvem-me. Salvem-nos. Salvem-se.
Eu continuo a evitar as grandes superfícies. Acho que o nome diz tudo: grandes superfícies. A superficialidade no seu auge de gigantismo. Eu prefiro a profundidade das relações humanas.

Terça-feira, Junho 06, 2006

Believe it or not, mas ao tentar publicar o post anterior, o publish ficou-se, suponho que eternamente, pelo 66 por cento. Faltava um seis, é certo, mas não pude evitar a associação.
666.

Por todo o lado me informam: hoje é o dia da besta. Que precipitados, valha-me Deus. Só faço anos daqui a uma semana.
Dêem as boas vindas ao Irmão Lúcia. Está provado que faz milagres.

Segunda-feira, Junho 05, 2006

Realismo e realidade.

A minha vida precisa de um rumo. Em frente ao espelho ensaio conversas comigo mesmo, imitando o cavalheiro Travis, aquele que guiava um táxi em Nova York, de madrugada, nos anos oitenta. Eu lanço impropérios ao reflexo e ele a mim, até que é chegado aquele momento, e, em inglês propositadamente americano, digo: «are you talking to me?». Claro que estou. Estou a falar comigo mesmo. Não sou motorista de táxi, nem tenho aquele penteado freak, mas tomei uma decisão como o meu velho amigo Travis. Estou decidido. Tomei minha vida pelo colarinho e não a deixei fugir. Ela esvaiu-se em lamúrias pós-modernas, mas eu fui mais forte. I'm in charge now, bitch.
Tomei esta decisão, e ninguém me vai impedir de a levar por diante. Ninguém. Delineei o plano minuciosamente, se alguém da CIA ou do KGB me está a ler, saiba que daria um bom estratega (mas não, não aceitaria, infinitamente não): mudar de passeio sempre que vir um quiosque, uma papelaria, uma banca de jornais. Afastar-me o máximo possível. Fugir desses lugares como o Diabo da cruz, ou como fujo de ambientalistas com falta de higiene (eu sei, redundância).
Mas é infame. Não posso mais ler notícias, comprar mais jornais, estar a par da actualidade. Quanto às colunas: eu espero que saiam reunidas em livro. Sou paciente. E sei que os melhores cronistas têm sempre direito a edição em livro. Tudo o resto, notícias, actualidade, vida real, tudo isso me há-de passar ao lado, se Deus quiser.
Porque, sejamos francos, para que quero eu ler a trigésima notícia sobre o défice, ou sobre as corporações do Japão, ou sobre a corrupção no Brasil, ou sobre a fome em África? Estamos todos já fartos de saber essas coisas, e de saber também da nossa impotência perante tais questões. Portanto, porquê santo Deus, porque hei-de eu ler as notícias, porque hei-de eu perder tempo com o Luís Delgado ou com o Ruben de Carvalho, se tenho o Eça em casa, na estante e na cabeceira, ali a querer contar-me estórias magníficas, ou melhor: estórias normais, mas magnificamente contadas? Para quê trocar isso, que é tanto, por uns quantos jornalistas que não sabem escrever, por mais um artigo de jornal desinteressante e sem impacto na minha vida? Sim, eu disse: sem impacto na minha vida. Nada disso tem impacto real na minha vida. Nem na vossa. Não seja hipócrita, leitor. O Eça sim, tem impacto na minha vida. Aquelas personagens são mais reais que essas que todos os dias povoam páginas e páginas de jornal. E é por isso que hei-de sempre preferir o realismo à realidade.
Quando eu falo da actualidade.

Agora é a minha vez de falar da polémica do momento. Leia-se: plano nacional de leitura. Leia-se: palhaçada.
Primeiro erro: considerar o plano uma prioridade política é ser utópico no que há-de pior. Ou seja, cego. O choque tecnológico não passa por aqui, cara Ministra. Já ninguém tem paciência para a boa-vontade democrática, de olhos vendados e ouvidos tapados, pois não?
Saramago insurgiu-se e muito bem. Contra esquerdistas, contra o politicamente correcto, contra todos. A literatura é reservada a uma minoria. Objecções sérias? Nenhuma. Há iletrados em todas as classes sociais, em todos os meios, em todas as idades, e é de facto uma minoria a fatia da população que gosta de ler. Tudo o resto é dieta de best-sellers. Não conta.
Ao que parece, o plano está bem definido, com directrizes rígidas sobre o que se deve fazer. (encolho os ombros). A aprovação deste plano só demonstra que a Ministra não tem hábitos de leitura. Quem os tem saberá que organizar horas diárias de leitura só fará pior. Ler é uma questão de livre arbítrio. É aí, aliás, que reside o verdadeiro prazer da leitura. Abrimos um livro, e lá encontramos um mundo. Não é este que nos apetece, abrimos outro. E outro. E ainda outro. Quando nos apetece. Sublinho: quando nos apetece. Repitam comigo: quando nos apetece. Mais uma vez: quando nos apetece.
Olhar a literatura sob uma perspectiva utilitária é castrar o interesse de quem o pudesse vir a desenvolver. Se na escola me tivessem obrigado a ler todos os dias, confesso-vos que, provavelmente, nunca teria lido um livro que fosse. Sempre fui contra aquilo que me foram impingindo. Só comecei a gostar de Camões quando acabámos o programa. Eça de Queiroz idem. Mais: só compreendi a genialidade de ambos, quando já não eram "obrigatórios". E eu, à altura, já tinha hábitos de leitura intrínsecos. Coisa grave, eu sei.
Com ou sem plano de leitura, o interesse das crianças será o mesmo. Das crianças? Das pessoas. Haverá sempre pessoas que se interessam e pessoas que não se interessam: e nada disso tem a ver com determinismo familiar, ou com o estabelecimento de ensino. O prazer da literatura vem de um outro lugar, provavelmente indefinido. São coisas que acontecem. Uma vez por acaso, ficamos em casa, em vez de ir jogar à bola, pegamos num livro, e somos subitamente infectados com uma doença incurável: o prazer da leitura (aproveito e recomendo, a propósito, o livrinho com o mesmo nome do Proust, delicioso). Há quem se deixe contaminar e quem se não deixe. Como com tudo o que dá prazer: dará sempre prazer a uns e a outros não. E é assim que deve ser.
O plano de leitura é simplesmente um gasto ridículo de dinheiro, um rombo desnecessário nas finanças nacionais, e um passo em falso. Mas, devo dizer, achei de uma elegância queirosiana (isto é, sarcástica), os nomes de Vasco Pulido Valente e José Saramago figurarem na Comissão de Honra. Embora as presenças sejam justificadas, não deixo de me rir com o facto.
Não se põe um povo a ler com planos de leitura. Da mesma forma que não se proíbe um povo de fumar com medidas fascistas ou se demove um povo de torcer pelo seu país no mundial de futebol.
Separar as águas:

Concordo com tudo o que o Sérgio diz sobre o Vasco Pulido Valente. Discordo de tudo o que o Sérgio diz sobre Saramago. Discordias e concordâncias à parte, é um grande texto.
Notícia de última hora:

Tenho sono e vou dormir.
O purgatório e os playgrounds.

Acredito na reencarnação. Explico: as pessoas más vão para o inferno, as pessoas boas vão para o paraíso. Mas nunca permanecem lá a eternidade. Porquê? Porque Deus percebeu que ninguém é suficientemente bom e aprendeu o bastante para povoar o paraíso, e o Diabo percebeu que ninguém é suficientemente mau e aprendeu o bastante para eternamente permanecer no inferno. Como o purgatório tem um espaço limitado, a humanidade não pode estar toda ali junta. Deus e o Diabo reúnem-se em conferência. Como o único espaço intermédio além do purgatório é a terra, e como construir novas instalações capazes leva tempo, ambos concordam que o melhor é mesmo enviar as almas de volta à terra.
O paraíso está despovoado e o inferno também. Deus e o Diabo, à falta de trabalho, jogam xadrez e lêem clássicos. De vez em quando chamam a alma de Camões ou de Cervantes para lhes esclarecerem certas passagens.
Antigamente Deus gostava de olhar para o mundo, no tempo em que as pessoas tentavam construir torres que chegassem ao céu, e essas coisas. Agora não tem tanta piada. É até aborrecido. Acaba sempre por ir ler Platão de sobrolho quase constantemente franzido.
O Diabo é um pouco precipitado, e tem uma certa raiva ao Nietzsche por ter previsto que, no auge do aborrecimento, Deus e o Diabo haveriam de recriar o mundo todo, e tudo se repetiria. Mas normalmente não se preocupa com isso. Até porque costuma ganhar ao xadrez.
A ler: Quanto valem "Os Verdes"?

Domingo, Junho 04, 2006

Confissão, após telejornal:

Já não posso ouvir falar em futebol. E o mundial ainda nem começou. Eu até escrevia isto tudo em caps lock, que denunciava de forma mais verdadeira o meu estado de espírito, mas a boa educação não me deixa: gritar é pífio.

Sábado, Junho 03, 2006

Os MECA.

Venho hoje falar-vos de uma fatia do meio editorial português violentamente desprezada, marginalizada, escarnecida, alvo de todo o tipo de impropérios e gozos por parte de intelectuais de unhas afiadas. Falo-vos dos MECA (os Maus Escritores Com Ambições). Aqueles escritores que são péssimos, tão maus que rezo todos os dias para que parem de escrever livros, a bem das poucas pessoas que os hão-de ler, agora ou no futuro. Os MECA não são light, porque não falam de crises de meia-idade, nem da emancipação feminina numa sociedade onde a mulher trabalha e é infinitamente mais bem sucedida que o homem, nem de roupas Chanel, nem de conspirações mundiais, nem de religiosidades alternativas, não. Os MECA aspiram às narrativas sobre as grandes questões da humanidade, sobre os grandes dilemas, sobre os problemas sociais agudos. OS MECA gostavam de ser Saramago, Kafka, Borges, Hesse, Orwell (que, desconfio, não leram, mas ainda assim aspiram), mas parecem Ferreiras de Castro atrasados para o comboio, com muito mau gosto campónio, numa sociedade marcada pelo mau gosto moderninho. Os MECA são ignorados pelo grande público e menosprezados pela crítica (e com razão). Querem nomes? Eis os nomes: Urbano Tavares Rodrigues, José Jorge Letria, Mário Zambujal. Entre outros.
Os MECA são como parasitas no meio editorial: não vendem, nem têm qualidade. Não são apreciados pelas massas, nem pelos intelectuais, só pelos membros que sabem ler do Partido Comunista Português. É uma posição ingrata, a deles. Porque nunca hão-de conseguir vender muitos livros - quer porque são maus, quer porque escrevem de forma macarrónica, maçadora, e arcaica - e porque insistem e sonham e querem porque querem ser reconhecidos como intelectuais, e não como autores de best-sellers, nem sequer como escritores menores.
Não duvido que sejam grandes conversadores, gente simpática, com quem seria agradável tomar um café ou uma cerveja (quer dizer, o Urbano está mentalmente decadente. E os outros são a deselegância em pessoa). Mas são simpáticos. O problema é mesmo a escrita, os livros. São maus. São do pior. Estes homens escrevem mal. Não são Dan Browns, nem Paulos Coelhos. São escritores. Mas são maus. Tão maus que é preciso dizê-lo uma vez mais: são maus.
Tenho um pesadelo recorrente em que um MECA me dá aulas de escrita criativa. É terrível. E depois das aulas o MECA ainda me persegue, me impinge três livros seus e um inédito do Ferreira de Castro encontrado numa palhota no Alentejo, que, fatalmente, é igual a todos os seus outros livros. Claro que acordo banhado em suor. E com medo. Muito medo.
Mas acho que pouca gente lhes dá atenção. No meio literário são gozados, humilhados, mas tudo nas costas, que a hipocrisia rege o português: seja o trolha ou o intelectual. Mas os sociólogos, principalmente, deviam prestar-lhes mais atenção.
Proponho-me a traçar o perfil dos MECA: são antigos esquerdistas sem tomates, que ainda vivem em setenta e cinco, acabados de sair do armário onde se escondiam com medo; gostam de aparecer na televisão (inclusive em programas pouco recomendáveis), na rádio (em programas mais recomendáveis - ou não, visto que eles são convidados a lá ir), e gostam de figurar nas comissões de honra de candidatos a presidente da república. Incapazes de ter uma ideia própria, de pensar fora do círculo restrito em que lhes ensinaram a pensar, escrevem livros como se ainda vivêssemos no PREC e a entrada na União Europeia ainda pudesse ser vista como um erro. Têm os seus santos no altar e jamais questionam o que lhes foi ensinado. Os MECA são gente estagnada. São neo-realistas à deriva. São trolhas inomináveis. Mas, felizmente, os MECA estão em vias de extinção. E espero que não apareça por aí um comissário do Green Peace sem a higiene em dia para preservar esta espécie ameaçada, que são os MECA.
Mas não haveria problema nenhum com os MECA, caso se mantivessem quietos. Há tanta gente assim. A maior parte das pessoas é assim. Mas não, eles precisam de ter vida pública, de se afirmar como intelectuais, de estar presentes nas cerimónias. E mais: de escrever livros. Porquê, santo Deus? Porque não o silêncio, o poético silêncio, o glamoroso silêncio. Por isto mesmo: a falta de glamour destes escritores é gigantesca, assustadoramente incomportável. Não há charme na sua escrita, só poética brutamontes, com mão de cavador de batatas. Por vezes duvido que sejamos o mesmo país de Eça, mas somos, infinitamente somos, e o Eça sabia-o melhor que ninguém.
Os MECA podem orgulhar-se de ser a única corrente literária europeia que alia uma escrita péssima, a umas ideias ridiculamente datadas, e a pretensões intelectuais gigantes. Os MECA são bastardos da cultura, da própria corrente que abraçaram e os abraçou, bastardos do país, bastardos dos leitores. Mas isso é problema deles. Eu só queria que eles deixassem de escrever.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

O escriba errou.

Às vezes dou erros tão estúpidos que merecia levar uma carga de porrada memorável, daquelas a jeito, que me partisse algumas costelas e perfurasse certos orgãos vitais, e - isto é importante - que me impossibilitasse a escrita durante, pelo menos, um mês. Um espancamento simpático, no fundo. Espero que ninguém tenha reparado no erro ridículo presente no texto "Cut while shaving" - pelo menos ninguém me quis avisar da sua existência. Deve ter sido para não me sentir humilhado, how nice of you. Pelo erro, as minhas desculpas - está corrigido. Eu vou só ali penalizar-me com um chicote e já volto - com as costas em sangue.
a ler:

- Tristeza e Desencanto.
- Reminscências.
Cut while shaving.

O eterno retorno existe. E, de tempos a tempos, também eu empurro as culpas para as costas largas do Nietzsche, e vivo impunemente, como se não soubesse que, anos mais tarde, no julgamento final, irei ser interpelado por tais feitos. Isto é: os erros.
Portanto deixo-me de interlúdios diplomáticos, de introduções pomposas de glória destruída, e digo-vos: a culpa é minha. O verdadeiro pecador é aquele que confessa os seus pecados e se arrepende, mas que reincide. Um homem é mais homem pelos erros que repete que pelos que comete. E depois há ainda estas alturas em que julgo saber tanto da humana condição como o velho-sempre-novo-de-cigarro-na-boca Camus. Mas não sei nada. Por isso não me levem a sério. Let's cut to the chase. Shall we?
A culpa é minha. E só minha. Não vale a pena culpar o destino por voltar sempre. Se reincido numa acção nociva para mim e para outros, a culpa é minha e só minha. Mas, defendo-me, isto é uma doença. Isto: a solidão. Mais que uma doença, um vício. Estar sozinho. Ser de alguém implica reciprocidade - sim, eu sei que a reciprocidade é feia - mas é verídico. Só somos inteiramente de alguém, quando esse alguém é inteiramente nosso. Impossível, eu sei. Por isso, no meu paraíso imaginado não há lugar senão para mim. O mundo lá fora que se arranje. Mas não é assim. Nem nunca poderá ser. O Pascal avisou-me tantas vezes: "a infelicidade começa quando saímos do quarto". E eu não ouvi. Insisti em sair. Se só vivemos nos outros, eu devo viver menos. Mentira. Eu vivo tão exacerbadamente nos outros que ninguém quer viver em mim. Ah, cut the crap, chega de lamúrias. Estou deprimido, so what?, ainda nem explanei a minha ideia.
Vendo as coisas numa perspectiva economicista, digamos que um amigo me dura, mais ou menos, seis meses, até o descartar, sem razão aparente - ou mesmo com razão aparente -, até me sentir tão absorvido pelos seus problemas que nem consigo pensar nos meus. Eu sou egoísta, repugnantemente egoísta. Sim, sou humano. Mas o meu egoísmo é acima da média. Alguma coisa teria de ser acima da média em mim. Foi o egoísmo. Talvez na próxima vida me destaque por alguma coisa boa.
Há tempos disse que sou incapaz de ser amigo de uma mulher bonita, vagamente bela ou simplesmente elegante. Não é mentira, mas não é a verdade inteira. Olho para trás, olho para mim, olho para os outros, e vejo, claramente, que sou incapaz de ter amigos. Não aprendi a tempo. Ninguém me ensinou. Creio ser tarde demais. O meu problema é, de facto, a falta de timing.

Ler com sotaque:

abro a porta vejo a fumaça no asfalto
o sol me cega eu sigo em frente
encaro o sol deixo meu rastro para trás
o dia corre assim veloz
o dia corre além de nós.
Zeca Baleiro. As meninas dos Jardins.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

A era do vazio.

A modernidade trouxe consigo uma vasta gama de novos conceitos. Mentira. Os conceitos são os mesmos, apenas foram substituídos por formas delicadas e hipócritas de dizer as coisas. Parece que a modernidade veio em defesa dos fracos e oprimidos, suavizar os adjectivos e epítetos que se colavam às pessoas como as roupas ao corpo no verão.

A modernidade apagou do mapa a categoria dos burros, dos acéfalos, dos ignorantes. Roubaram-nos os energúmenos mas trouxeram ao mundo os disléxicos. A dislexia começou por ser uma doença, uma perturbação neurológica: hoje, é uma justificação para blagues, para ausência de cérebro, e outras coisas normalíssimas entre seres humanos. Ora, o que são os disléxicos modernos? São burros. Só que uma das bandeiras da modernidade é não chamar os bois pelos nomes. Logo, um burro não é um burro: é disléxico, como peixe cru não é peixe cru: é sushi. Um disléxico é, por fim, alguém de quem não podemos rir quando dá um erro de concordância porque ele tem um problema, uma espécie de doença não muito grave, mas ainda assim, uma doença, que não podemos escarnecer porque é discriminação.

Outro exemplo: as crianças irrequietas. Dizer «crianças irrequietas» é quase uma redundância, já que quase nenhuma criança consegue estar sossegada mais do que dez minutos. Dez minutos? Estou louco: dois minutos, e é com boa vontade. Tenho dois irmãos pequenos e uma catrefada de primos com idades entre os zero e os seis anos, e eu é que sei a confusão que são as festas de família: aquilo é guerra, nada menos que guerra: há mortos e feridos e mutilados. E as crianças são as principais responsáveis. Porquê? Porque são irrequietas. São o quê? Perdão: são hiperactivas. As crianças agora não são enérgicas, são hiperactivas. Se o seu filho correr de um lado ao outro da casa, por favor, vá à farmácia e entupa-o de medicamentos a ver se ele pára, que é caso grave. De hiperactividade, claro. Depois, quando se sentir cansada de enfiar os medicamentos pela goela do seu filho abaixo, tome uns quantos anti-depressivos, que é difícil lidar com as crianças hiperactivas.

Mas a parte que eu mais gosto na modernidade são as manias da saúde. Desde o vegetarianismo, à macrobiótica, passando pelo yoga, o tai chi shuan (ou lá o que é), e mais o sushi, e mais o reiki, e mais a carne biológica. É engraçado como as pessoas se sujeitam a comer carne de soja e outras porcarias com o pretexto de «não fazer sofrer os animais». É que, além de não alterar em nada o procedimento dos matadouros, a atitude vegetariana desperdiça a carne e o peixe, potenciando assim o desperdício, e aí sim, tornando desnecessária a morte dos tais animais. E mais o yoga e o tai chi e o reiki, cujo intuito é encontrar «equilíbrio», e trazer serenidade. For god?s sake: fumem um cigarro; bebam whisky de malte. E mais a carne biológica que é desfalecida e tem toxinas na mesma. E do sushi nem é preciso dizer nada: é peixe cru, santo Deus.

A mania mais moderna de todas é a de que não existe nada melhor ou pior que outra coisa, tudo é equivalente em qualidade e em pertinência; todos somos igualmente talentosos e empenhados e trabalhadores e bem sucedidos. E não há nada que possamos fazer de melhor ou de pior, porque cada coisa segue «o seu caminho», tudo está irremediavelmente certo: e não há nada de mais errado. A destruidora ideia de igualdade que, primeiro, se apoderara da política, apodera-se agora da arte. E é evidente que esta paranóia da igualdade há-de levar à extinção de tudo o que existe de bom na humanidade: porque tudo isso nasceu da diferença, da excepção, da rebeldia, da fuga aos cânones ou da subversão dos mesmos. Vivemos, por isso, tempos perigosos.

A arte foi tomada de assalto pela modernidade: tudo agora se rege sob regras diferentes. Um instalador de luzes é um artista plástico; um hacker é um músico; e sobre a ?poesia experimental?, a ?poesia visual? e a ?poesia sonora? nem sei falar, não compreendo aquilo, não sei que ligação pode haver entre Byron e aquelas «criações», não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

Qualquer um de nós, eu, você, o vagabundo que passa na rua e vasculha o nosso lixo, ao pegarmos nas embalagens que separamos para a reciclagem e amachucando-as, podemos estar a fazer arte. Uma vez entrei na galeria da ZDB (Zé dos Bois) e vi lá exposta uma embalagem de iogurte que tinha ontem posto na reciclagem. Primeiro fiquei ultrajado: é plágio. Pior: é roubo. Depois caí em mim e achei que talvez fosse preferível ninguém saber que fui eu que fiz aquela coisa. A própria definição de arte agora é muito vaga. Ou muito específica: arte é tudo aquilo que se pareça com um boi-cavalo e que possa ser interpretado metafisicamente. Qualquer poema que possamos ler sem uma enciclopédia e um dicionário de grego ao lado é mau porque superficial, e tudo agora é profundo, o que quer mais ou menos dizer que esta «nova arte» está, justamente, muito bem enterrada. Qualquer quadro que apresente algo mais que manchas, figuras delineadas, traços firmes, personagens visíveis, é arcaico: a pintura como a conhecemos passou à História, e todos os novos artistas são, ao mesmo tempo, parentes pobres de Jackson Pollock e seguidores do movimento dadaísta.

Imaginem um estudante de design a acariciar a barba rala (sempre rala), ajeitando os óculos de massa fashionable (sempre de massa, very fashionable), enquanto olha para uma embalagem de detergente amachucada, tentando destrinçar os mistérios da existência pós-moderna, assente sobre os preceitos do missing-link macrobiótico, que pertencera a uma civilização nas margens do rio reiki, e que em tempos idos estivera em guerra com a tribo que inventara o sushi e partira uma unha e então tudo pereceu no mundo dos novos intelectuais. Pois, divago. Mas eles não se riem. Tudo na nova «arte» é sério. Mentira, é irrisório e ridículo. Mas é sisudo. Rir é para os ignorantes. Os intelectuais só analisam, e pensam, sempre pensam, sobre tudo, sobre o que vêem, e sobre a embalagem amachucada, isto é, a obra de arte.

Os novos intelectuais não lêem livros «porque são obsoletos e fornecem cultura desactualizada» (disseram-me isto, juro. Mentira, quem disse não sabe o que significa obsoleto. Mas disse-me que eram antiquados e desnecessários, os livros) ? só lêem revistas de vanguarda, de «poesia experimental», de instalações de luzes, de arte contemporânea, de design (e, claro, de marketing e publicidade). Os novos intelectuais olham para uma pilha de lixo e vêem uma exposição de escultura. Os novos intelectuais olham para uma t-shirt com nódoas e vêem um quadro de arte contemporânea. Os novos intelectuais só vêem filmes japoneses e alemães saídos há menos de dois meses. Em edições de autor, sempre. Só ouvem drum n? bass, trance e tecno, porque é a vanguarda da música e porque ? e cito de novo ? «os instrumentos são limitativos e as melodias desnecessárias». Só vêem teatro experimental, sem diálogos, e com uma metafísica intrínseca no jogo de sombras que fazem com o dedo mindinho do pé direito e um palito no canto esquerdo da boca. Os novos intelectuais, e aí tenho de lhes dar valor e mérito, criaram toda uma nova corrente de pensamento. Que é, basicamente, não pensar. E adjacente a essa corrente de (não) pensamento, nasceu a arte contemporânea: que tem a particularidade de não ter nada a ver com arte.

Se estes são os valores modernos, sou o homem mais reaccionário à face da terra.